DEZ DICAS PARA SABER SE VOCÊ ESTÁ MORTO

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Muita gente me pergunta se o que acontece com o Bruce Willis em o “Sexto Sentido” pode acontecer com qualquer um. A resposta, infelizmente, é YES. Para dizer a verdade a maioria de vocês é muito barrichella e demora demais pra perceber que não pertence mais ao mundo dos vivos. Alguns chegam a tentar criar comunidades no Orkut do tipo “Encosto é quase amor”, mas se tocar que é bom, nada, necas. Um horror.

Sim, porque se você não consegue perceber que a sua vida no além é diferente da anterior, sorry, é porque a sua vida terrena realmente era uma shit. Pior, ainda que seja por engano, nada é mais brega do que uma alma tentar passar pelo o que não é ou tentar mostrar o que não tem, no caso, um corpo. Autenticidade é tudo, gentchi, até após a morte. Portanto, quando morrer, fique smart e assuma sua nova condição sem medo.

Para ajudar preparei uma listinha de dez indícios fortes para você não penar quando já for uma alma penada. Você vai me agradecer por mais este toque. Kisses.

ATENÇÃO: VOCÊ JÁ ESTÁ MORTO QUANDO…

1 – Você acorda numa manhã de sábado sem preguiça NENHUMA.

Sim, a alma pode estar em pé, mas o corpo ainda deve estar na cama. Desconfie muito.

2 – Você bate a cabeça na parede do seu apartamento e vê a sala de estar do vizinho.

Esta regra também vale para topadas com o dedinho do pé em móveis. Se isso não acontece com você faz tempo, fique atento.

3As pessoas te enchem de perguntas idiotas e você está dentro de um COPO.

Entenda de uma vez: você não é o cara mais engraçado daquela galera. Você simplesmente MOR-REU!

4Numa cerimônia de cremação você é o que sente mais calor.

Auto-explicativo.

5Você não usar email, nem celular, e seus amigos te acham fácil só falando “Fulano? Você está aí?”.

A verdade é que se você consegue viver bem sem celular, internet, facebook, twitter, relógio, e tudo o mais, você pode até ter não morrido, mas já deu um grande passo pra deixar de existir.

6Você estiver numa mesa com gente de mão dada, sem cartas, rezando, e falando seu nome.

Lembre-se: NÃO é assim que se joga pôquer. Acorde pra vida. Ou melhor, pra morte.

7Você dá um festão no seu apartamento e os vizinhos chamam uma benzedeira em vez da polícia.

Qualquer um que tenha assistido Poltergeist ou Caça-Fantasmas saberia disso.

8A única mulher em quem você consegue entrar é uma mãe-de-santo.

Válido apenas para espíritos que vieram de um corpo masculino.

9A sua família passa a usar seu quarto pra guardar tranqueira com VOCÊ AINDA DENTRO.

EXCEÇÃO: Se você se formou em Artes Plásticas, Cinema ou Design, e tem mais de 30 anos. Você pode ser apenas mais um chupim que não consegue pagar suas contas sozinho e vive na aba dos pais. Então essa situação é só uma indireta deles para que você vaze logo de casa.

10O seu psicanalista não cobra pela sessão.

Esta é a única dica que uma sessão de psicanálise pode lhe dar, porque é muito comum psicanalistas não falarem nada durante a sessão. Agora se eles realmente escutam o que você diz, me desculpem, mas nem em vida vocês terão essa certeza.

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A Morte acha que todo artigo sobre etiqueta deve ter afetação, termos em inglês, e frescura.

UMA NOITE NA SAPUCAÍ

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O nome do sujeito era Adaílton e em sua ficha estava escrito apenas “Sambista – Cirrose”. Típico. O cara bebia tanto, mas tanto, que no lugar do seu fígado devia ter um buraco com um bilhetinho escrito “Desisto. Fui.”. Seu empresuntamento estava marcado para aquele fatídico sábado de carnaval e compareci no horário em seu barraco. Mas ele não. Quando bati em sua porta uma vizinha enxerida esticou o pescoço por cima do muro e me disse que o tal Adaílton não estava lá. Àquela hora ele já deveria estar no Sambódromo e sua escola de samba pronta pra entrar na avenida. Ela ainda me acelerou: “Vai logo você também. Devem estar te esperando!”. Não entendi bulhufas. Deixei pra lá e fui pra Sapucaí atrás do pré-defunto.

Cheguei na concentração das escolas e aquilo estava muito cheio. Lembrava-me o oitavo círculo do inferno, só que mais quente. Perguntei pelo Adaílton, mas ninguém me dava atenção. Estava todo mundo tenso, arrumando coisas na última hora, o pessoal da bateria tomando bronca, correria de aderecista pra lá, de maquiador pra cá, e eu fui tratado na patada por todo mundo. Já estava puto e pensando em reclamar com o pessoal da LIESA quando um negrão de dois metros de altura me segurou pelo braço e falou “Aí, mané, tá fazendo o quê aqui? Vai pro seu lugar! A gente já vai entrar!”. “Que meu lugar?” – estranhei – mas ele não respondeu e já foi me empurrando por um aglomerado de gente fantasiada, mulheres com plumas, carros alegóricos, até me largar em uma ala cheia de gente fantasiadas de MORTE.

Surpresa total. Havia uma “Ala da Morte” para ilustrar enredo da escola aquele ano. Era composta por umas duzentas pessoas de roupa preta, máscara de caveira, e foice na mão. Foi então que entendi porque a vizinha do Adaílton me apressou. O problema é que a fantasia de todos ali dava de dez no que eu estava vestindo. Fiquei meio envergonhado. Perto deles a minha roupa parecia algo comprado na Renner em cinco prestações. As túnicas de todos ali era cheia brilhos, lantejoulas, paetês, e a foice era toda de prata. Viadagem pura, claro. Mas carnaval sem viadagem não é carnaval.

Um carnavalesco afetadíssimo surgiu no meio de todo mundo e botou ordem no pedaço. A biba gritava com uma euforia que beirava a psicopatia: “Vamos lá, gente! Hoje é dia de luz! Muita luz! Muito sucesso! Vamos que esse ano é nosso! Ninguém tira esse campeonato da gente! Quero ver todo mundo dando sangue! Quero ver todo mundo sambando e cantando! Não quero ver ninguém parado, vamos lá!” e todos soltaram um grito de guerra.

Estava eu pronto pra mandar tudo aquilo à merda quando a bateria começou a tocar, tum-tum-tum-tum-tac-ti-tá-tá-tum-tum-tum-tum, e ao som daquela batida ancestral algo aconteceu dentro de mim. Foi então que me toquei de que iria desfilar numa escola de samba do PRIMEIRO GRUPO DO RIO DE JANEIRO! Caraca, mermão! A emoção bateu tão forte, tão poderosa, que é impossível descrevê-la. Quando todo mundo começou a cantar e dançar eu esqueci da vida, (quer dizer, da morte) e me esbaldei.

A minha escola de coração (agora era!) entrou linda na avenida. Eu fui sambando junto, mandando beijinhos pra todos, dando piruetinha e tudo. Foi demais! Vocês não tem idéia da emoção que rola quando a gente está lá, genti! Só quem foi pode dizer. Uma câmera da Globo me flagrou e eu dei uma sambadinha pra ela. O Cléber Machado quando me viu falou: “Olha aí a câmera da Globo pegando todos os detalhes pra você espectador que tá em casa. Olha que bonitinha essa Morte! O Ceifador de almas! Até parece a Morte de verdade, né, Mariana Godoy?”. “Sei lá, Cléber, eu nunca morri” – respondeu Mariana.

Desfilei durante vinte minutos improvisando o samba na base do “Lara-Lá-Olê-Lê-esquindô” já que não sabia picas da letra. Mas quando prestei atenção no que todo mundo estava cantando, comecei a me incomodar. Havia algo errado ali. A letra do samba era algo assim:

Mestre das curvas e retas / Criador da nossa capital

Filho do Rio de Janeiro/ Pai de uma obra imortal

O nome veio do alemão / E a inspiração do francês

Le Corbusier/ concreto armado agora tinha sua vez

Recriou a linha do horizonte / Desenhou as ondas do mar

Seu nome ecoa na história/ Pra sempre o nosso Oscar!

Oscar? Que porra de Oscar era aquele? Descobri, pasmem!, que a escola estava homenageando o OSCAR NIEMEYER! Puta que me pariu! O meu inimigo imortal. Fiquei ainda mais puto quando me disseram que a nossa ala se chamava “Pé-na-bunda da Morte”. Havia até uma coreografia que começava no meio da avenida com uns carequinhas representando o Niemeyer que vinham e davam um chute no traseiro da gente. Humilhação total.

Comecei a achar tudo uma bosta e broxei na hora. Só faltava o samba-enredo ter uma rima com “Sapucaí” pra merdear de vez. Porque é aquilo, toda porcaria de samba-enredo tem que ter a palavra Sapucaí. Até que ouvi o trecho:

Arquiteto do Palácio da Alvorada/ e do Itamaraty

Receba com glórias a homenagem/ Na Sapucaí!

Pronto, não faltava mais nada. O pior, o pior de tudo mesmo, era o refrão idiota que eu estava cantando e nem tinha percebido:

Niemeyer/ Brasileiro de sorte

Sua vida é o sopro mais forte,

Mais forte, mais forte, que a Morte

Sem exagero, aquilo me deu engulhos. Tentei voltar, sair da minha ala, mas o negrão de dois metros me empurrou de volta “Vai lá e samba, porra! Bota ânimo nisso!”. Eu tentava sambar, mas não dava. Comecei a destoar do resto. “Estou cansado” – tentei alegar – “essa fantasia pesa” – afinal todo folião diz que a fantasia pesa. “Foda-se!”, disse o negrão, “até o velho está aguentando” e eu perguntei “que velho?”. Ele então me apontou, no alto de um carro alegórico representando a Igreja da Pampulha, ele mesmo, o próprio Oscar Niemeyer cercado por três mulatas e duas panicats de destaque.

O velhote estava sambando emocionado e o coração estava à mil. Cenário perfeito para um empacotamento épico. Nem acreditei na minha sorte. Com certeza nunca mais teria uma chance daquelas. Animei-me outra vez. Comecei a sambar alegrinho e dei um jeito de acelerar minhas passadas em direção ao carro do velho arquiteto. Daquele dia ele não passaria.

Atravessei a ala “Plano Piloto”, onde todo mundo estava vestido de aviãozinho no formato de Brasília. Depois passei pela ala “Karl Marx”, onde todo mundo estava vestido de barba branca representando o lado comunista do homenageado. Agachado, passei ao lado do carro alegórico “Edifício Copan” que foi representado deitado com uma fina camada de água e com surfistas deslizando pelas ondas do famoso edifício. Os surfistas estavam de terno, gravata e maletas na mão, representando o “trabalhador paulista”. Depois me agachei e atravessei a ala “Câmara dos Deputados”, onde todo mundo se vestia como o prédio da câmara, só que em cima da fantasia havia pacotes de dinheiro. Uma crítica social do carnavalesco à “corrupção do país” e etc., ou seja, as mesmas merdas de sempre.

Finalmente consegui chegar ao carro onde estava o Niemeyer. Eu nem podia acreditar: o Matusalém estava a poucos metros de mim. Eram metros pra CIMA, mas eram poucos. Comecei a escalar a parte de trás do carro e fui subindo, de forma lenta, saboreando cada minuto daquele momento histórico.

Porém, quando eu estava quase chegando ao topo acabei escorregando nas curvas daquela falsa igreja da Pampulha (Pra quê tanta curva numa igreja, Meu Deus? PRA QUÊ?!) e caí deslizando e puxando metade do carro comigo. Dois destaques, dois caras peladões e purpurinados despencaram sobre mim. Vou falar, não foi nada agradável. Um deles caiu sentado na minha cara. Estou cuspindo purpurina até agora. Um horror.

Foi o maior rebuliço. Os câmeras da Globo evitaram mostrar detalhes. O pessoal da escola se agitou e começou a arrumar a situação rapidamente, mas não adiantou: atrasei o desfile em oito minutos e a escola perdeu pontos. O campeonato tinha ido pro saco.

Fui arrastado dali e me levaram para frente do negrão de dois metros outra vez. “Você de novo, seu merda?! Fudeu nosso desfile! Se a gente perder esse campeonato por tua causa tu vai morrer, mermão!”. Quando ele disse isso retruquei na lata: “O cacete! Quem você acha que é pra falar assim comigo?!”. Ele se aproximou e me deu uma encarada fulminante: “Adaílton Souza Neves, diretor de bateria. Por quê?”. Adaílton?

Bem… acho que não preciso dizer que nem tudo foi perdido aquela noite. O cara sofreu um colapso fulminante e morreu na hora. Todo mundo culpou o stress do desfile e estranhou o meu desaparecimento logo depois. Minha missão estava cumprida e parti pra outra. Tinha que buscar dois futuros eletrocutados em um trio de Salvador ainda aquela noite. Rotina.

Quanto ao Niemeyer, o de sempre: escapou ileso e nem viu nada do que aconteceu. Soube pela revista Caras que depois ele foi para o camarote da Brahma e ficou até as cinco da manhã conversando com a Gisele Bundchen. Como bem dizia o samba, o cara tem sorte.

LETRAS MORTAS 6

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Tem gente que morre sonhando
Tem gente que morre fazendo
Tem gente que morre esperando
Tem gente que morre correndo

Tem gente que morre rezando
Tem gente que morre temendo
Tem gente que morre chorando
Tem gente que morre querendo

Tem gente que morre na espada
Tem gente que morre por nada
Tem gente que morre de tonto

Tem gente que morre na estrada
Tem gente que morre arvorada
Tem gente que morre. E ponto.

MORTE

O DIA EM QUE PARTICIPEI DE UM BBB

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Quando entrei naquele banheiro de hotel eu não podia imaginar o que me esperava. O sujeito havia escorregado no box a ponto de seus pés voarem por cima de sua cabeça, bateu a nuca no chão, e morreu na hora. Estava eu indicando o caminho da luz para o pobre-coitado quando dois seguranças, com crachás da Globo, entraram no quarto e me interpelaram cheios de marra. Queriam saber quem eu era, o que fazia ali,o de praxe. Respondi aos dois de forma apocalíptica com a minha voz metálica ribombante:

Eu sou a MORTE! O Onipresente! O Implacável! O Todo-poderoso do destino! Ninguém manda em mim!

– Pffff! – rebateu o segurança – Você diz isso porque não conhece o Boninho!

Fiquei sem entender. Quem era Boninho? Os dois não me responderam e me ergueram pelos braços. Levaram-me até a presença daquele ser supremo, pelo menos parecia ser, que estava no saguão do hotel. Boninho já estava de ovo virado e me botou o dedo na cara.

– O que você fez com o Kleberson?

– Quem é Kleberson?

– A nossa melhor aposta no BBB desse ano. Alto, bonito, burro como uma porta, mas já tinha garantido duas capas da G Magazine quando saísse. E agora ele está morto por sua causa! Você estragou tudo!

Justifiquei dizendo que eu não sabia que o cara era um BBB confinado num hotel. Aquele era o meu trabalho e eu não podia fazer mais nada. Meu serviço é só buscar a encomenda. Que ele reclamasse com quem fazia os pedidos, ou seja, Deus.

– Eu não me rebaixo a ninguém! – disse Boninho – Eu quero um novo participante para o meu show agora!

Juro que pensei em dar uma ceifada ali e acabar com aquele moleque mimado. Mas uma assistente de produção, uma gordinha de head-set e prancheta na mão, sussurou algo ao ouvido de Boninho que reagiu como quem acabasse de descobrir que é herdeiro do Eike Batista. Ele abriu os braços e se aproximou de mim sorrindo. Fez uma proposta: que eu substituísse o Kleberson. Afinal eu também era alto, carismático, magro, bem magro, o que me garantia ficar bem diante das câmeras e que eu poderia ser o “diferencial” do BBB naquele ano, já que o programa é sempre a mesma merda e o hermafrodita argentino da temporada anterior havia sido um desastre. Eles nunca tiveram um ser do além na casa e eu poderia trazer frescor ao programa.

Obviamente eu disse não. Expliquei-lhe que sou um ser transcedental, uma entidade divina, que dá sentido à toda e qualquer forma de vida. Eu não iria largar tudo pra participar de um miserável joguinho humano de vaidade e cobiça onde tudo cheira a marmelada. Boninho então me prometeu que eu ganharia um Fiat Palio Weekend na primeira semana.

Topei na hora.

Antes da produção tirar o meu Iphone, e me afastar do mundo exterior, consegui visualizar o meu perfil no UOL junto com o dos outros onze BBBs. Lá dizia que eu era “irascível, cruel, implacável, mas sexy, bem humorado e com sexualidade indefinida, talvez gay”. Já havia 174 comments embaixo da minha foto que ia do “eu pegava” a “tem cara de viado mesmo”. Não gostei nada daquilo. Mas me disseram que fazia parte do jogo.

No dia seguinte saímos eu e os outros onze BBBs na carreata pela cidade até o Projac. Já ali rolou um stress. Boninho ficou puto quando aproveitei para liquidar dois motoboys no caminho. Pedi desculpas, disse que eu estava só adiantando um serviço pra quando eu saísse, mas ele não quis saber e me deu esporro assim mesmo, na frente dos outros. Fiquei com lágrimas nos olhos.

Chegando na casa, mais problemas. Ninguém queria ficar no mesmo quarto que eu. Discussão pesada. O Boninho teve que mandar todo mundo calar a boca pelo sistema de áudio. Senti um clima pesadão pro meu lado. Ninguém me queria por perto ou puxava assunto comigo. Percebi que não iria longe naquele jogo se não tomasse alguma atitude. Foi o que fiz na primeira noite quando o Bial apresentou a gente para todos os espectadores brasileiros. Soltei o verbo ao vivo.

– Ô, Bial, eu não ia falar nada, mas sou uma pessoa muito franca e costumo falar o que penso. Ó, eu sinto uma certa implicância comigo aqui dentro e gostaria de deixar claro para o público que eu não sou esse ser terrível que estão tentando pintar.

– Cara, você é a MORTE! – disse Nathalie, uma loirinha com cara de vagabunda que dividia o quarto comigo – Eu não sabia que esse programa aceitava esse tipo de… gente, ou sei lá eu o que é você. Tem que ver isso aí, Bial!

Respondi no ato:

– Fica na sua, Nathy! Se não você sai dessa casa pelo lado de cima, se é que você me entende.

Iniciamos uma pequena discussão, mas Bial botou panos quentes e nos acalmou. Ele aproveitou pra citar Fernando Pessoa. Ele falou que “navegar é preciso, viver não é preciso” e que eu apenas seguia isso ao pé da letra. Achei profundo.

Nos dias que se seguiram o clima não melhorou. Quando começaram as provas de resistência, ganhei todas. Como não tenho fome, nem sede, e não preciso ir ao banheiro nunca, pra mim é moleza ficar trancado dentro de carro, preso em gaiola, de cabeça pra baixo, a merda que for. Em uma semana eu já tinha ganhado um Corsa, duas máquinas da Brastemp, e dois anos de compras nos Supermercados Guanabara.

Isto me fez sacar que eu era o candidato mais forte, literalmente. O único que poderia tirar o prêmio de minhas mãos era Renato, um veterinário gaúcho simpático, altamente carismático, que trabalhava em uma ONG para salvamento de animais. Mas, felizmente, ele teve um AVC no terceiro dia e morreu de modo fulminante. Todos os outros BBBs me acusaram de manipular o jogo e eu disse que não mandava no destino, Renato morreria mesmo de derrame, e que o fato de eu ter adiantado sua morte em apenas 18 anos era só um detalhe.

O ódio dos outros concorrentes só aumentava. Quando pela primeira vez tirei a minha túnica para nadar na piscina, Gabrielly, uma baiana que já tinha transado com três caras ali dentro, inclusive um câmera, disse que eu estava nadando nu só para me mostrar. E eu disse que tava nem aí, que o que era bonito era pra ser mostrado. Leocádia, uma ex-modelo gaúcha e anoréxica disse que eu era só osso. Eu respondi: olha quem fala! Discutimos feio na piscina. Quem acompanhou no pay-per-view viu quando rolamos de porrada na grama.

Óbvio que tudo isso teria um preço. No primeiro paredão o pessoal foi implacável comigo: todos votaram para me tirar dali. Ganhei dez votos, o único que não votou em mim fui eu. O troço foi tão chato que o outro concorrente do paredão foi escolhido no zerinho ou um. Acabou sobrando comigo o Julius, um lutador de jiu-jitsu cujo cérebro havia morrido em 2004, mas ele não sabia disso ainda.

Ao mencionar o cérebro de Julius, Bial aproveitou pra citar Manoel de Barros e disse que “Morrer é uma coisa indestrutível”. Achei profundo.

Seguiram-se dois dias de tensão e fofoquinhas dentro da casa. Numa festa lá eu enchi a cara e disse que se eu saísse dali na votação levaria todos comigo. Gerei um momento de pânico. Os BBBs tentaram fugir pulando os muros e pedindo socorro para a produção, mas eu disse que estava me referindo à casa, e não a vida deles, porra. Boninho, pelo áudio, me proibiu de fazer qualquer referência à morte ou usar verbos como “empacotar”, “falecer”, “carregar” por ali. Depois me mandou tomar no cu. Sinceramente? Afinei. O cara bota moral.

No dia do resultado do paredão, o mico: Bial estava no meio das duas arquibancadas, uma lotada com a torcida da família e de amigos de Julius e do outro lado apenas uma arquibancada vazia. Eu não tinha ninguém me esperando lá fora, o que era uma coisa meio óbvia, mas ainda assim fiquei meio chateado. O bom é que foi por pouco tempo. Porque quando saiu o resultado da votação do público, veio a grande surpresa da noite. Apesar de eu ser o mais odiado, votaram pela saída do Julius. Eu vibrei como um louco, pulei no sofá, comemorei feliz. Urrú!

O que incomodou todo mundo foi a porcentagem: Julius teve 100% dos votos pra sair da casa. Num primeiro momento pensei “puta cara sem carisma, hein?”. Mas não era nada disso. Boninho então percebeu a cagada de me botar ali: podia rolar vinte paredões que o público JAMAIS votaria para que eu saísse da casa. Afinal, melhor a Morte presa em algum lugar do que trabalhando por aí. Resumindo: eu já era o vencedor daquela edição por antecipação.

O resultado foi a previsibilidade do jogo e consequente queda da audiência. Os anunciantes sumiram. Boninho me chamou num canto e disse que eu tinha que tentar reverter aquilo. Sei lá, dizer para os telespectadores que todo mundo que visse o BBB ganharia alguns anos de vida, ou algo assim. Eu disse que não podia fazer isso e que queria continuar na casa. Boninho então, como sempre puto, disse que iria fazer de tudo pra me tirar dali. Dei de ombros, estava nem aí. Esse negócio de fama mexe com o ego da gente.

Uma semana depois, eu estava brincando embaixo do edredon com Luara, uma psicóloga que também era garota de programa, quando tocou o Big Fone. Disseram que era pra mim e quando atendi tomei um choque: do outro lado da linha estava nada mais nada menos do que DEUS.

O Criador me enquadrou. Disse que não havia me posto no mundo pra ficar de boresta num programa de TV e que eu tinha muito trabalho atrasado fora da casa. Eu deveria sair o quanto antes. Fiquei furioso, reclamei, mas obedeci. Sumi da casa. Fui substituído por Lucas, um gorila depilado, mas a produção o apresentou como ex-lutador de UFC e dono de uma barraca de coco na Barra.

Para justificar minha saída, Bial citou no ar o poeta italiano G.G. Belli “Agora a morte está escondida nos relógios”. Achei profundo.

O público que acompanhava odiou, claro, mas aquela edicão do BBB (nem lembro qual) voltou a pasmaceira normal de todas as outras. Eu voltei ao meu trabalho rotineiro, mas ainda intrigado: por que Deus tinha que se meter naquilo? Duas semanas depois fiquei sabendo a resposta: o Boninho enviou para o Todo-Poderoso uma caixa de Chateau Lafite, o melhor vinho da adega do Boni.

Sério, eu sabia que BBB era meio marmelada. Mas nunca imaginei que pudesse chegar a esse nível.

NAUFRÁGIOS: COMO ESCOLHER UM?

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Morrer em naufrágio é um clássico. O auge dessa moda foi em 1912, com o afundamento chiquéééérrimo do Titanic e hoje sobrevive de sucessos bastante espaçados como o Bateau Mouche em 1988 ou o do Lago Kivu no Congo em 2010.

Porém, como todo big classic, o naufrágio nunca sai de cena por completo. No mundo todo há sempre as pequenas embarcações que vivem emborcando em rios, lagos, baías, e isso garante a essas glamourosas catástrofes uma sobrevida impressionante no mercado da moda da morte.

E a temporada 2012 começou arrasando. Afinal, nada mais cool que um Transatlântico de casco pra cima e o acidente do Costa Concordia veio para comprovar: cruzeiros podem ser cafonas e até estarem em baixa mas, no fundo, e bota fundo nisso, os naufrágios estão em alta.

Para quem procura se manter antenado com as últimas tendências da moda, e curte a idéia de empacotar no quintal de Iemanjá, nada é mais simples do que se tornar um marinheiro de primeira e única viagem com classe e elegância. Go ahead, sigam com atenção as dicas abaixo e boa viagem (ou não).

A primeira regra básica para se escolher um bom naufrágio é a do Salgado & Frio versus o Doce & Quente. Ou de forma mais clara: quanto mais salgada e fria a água, mais chique é o naufrágio. Quanto mais insípida e quente, mais brega.

Claro que uma pequena balsa virada no Rio Paraíba tem seu encanto. Mas, convenhamos, perde feio se comparado à imagem inesquecível de um transatlântico emborcado no Atlântico Norte. Ou alguém é capaz de imaginar o Leonardo di Caprio se afundando na represa do Guarapiranga? No way!

Apaixonantes, marcantes e charmosos, naufrágios marítimos como os do Titanic ou Poseidon permanecem na memória das pessoas, definem estilos, e marcam suas épocas. Seja numa baía, num canal, ou mesmo próximo ao continente, nada é mais IN do que morrer afogado em águas salinas.

A segunda regra para um bom naufrágio é ficar atento a distância da costa. Para uma desgraça marítima de verdade, quanto mais distante da Terra, mais phyno o naufrágio será. Afundar em alto-mar é um must e se o mar for o Mediterrâneo em pleno inverno europeu aí se é looosho!

Como tudo que é clássico também é moderno e prático, os naufrágios em águas salgadas também tem outro elemento que os colocam acima dos seus similares de água doce: predadores charmosééérrimos. Existe algo mais encantador do que ver vocês vestirem um tubarão branco em três ou quatro bocadas? Eu acho que não.

Alguns conservadores poderão dizer que jacarés e crocodilos também garantem boas mortes em agua doce, but, come ON! Vamos combinar? Répteis são UÓ, nunca aparecem quando mais se precisa deles. Na minha opinião jacarés só caem bem em pólos Lacoste e como matéria-prima de bolsas da Victor Hugo. Mas quando se trata de dar cabo de vocês são the horror, the horror. Esqueçam.

A terceira regra vale para quem não tem poder aquisitivo para um naufrágio marítimo. A idéia é se garantir nos detalhes. Evitem rios de correnteza forte que possam dificultar a localização de corpos, no caso, o seu. Afinal, um cadáver perdido no Mar da Noruega é uma gafe, mas tem charme. Já um corpo não achado na pororoca do Rio Amazonas é de envergonhar a família e vira piada. Run!

E é só isso. Como diz a velha canção de Dorival Caymmi, “É doce morrer no mar”. Hoje eu diria que é mais do que doce: é fashion! Portanto, anote essas regrinhas e embarque nessa. Para o fundo e avante!

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A Morte acha que todo artigo sobre etiqueta deve ter afetação, termos em inglês, e frescura.

O MILAGRE DA CASA 58

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Nevava muito naquela pequena vila inglesa na manhã do Natal de 1911. Eu, a Morte, o ceifador cruel e implacável, o senhor absoluto da vida e das trevas, parei em frente ao pequeno sobrado de tijolos à vista com chaminé e um telhado cinzento coberto de gelo e fuligem. Na porta de madeira, pintado à mão, um rústico número 58. Tirei minha lista do bolso e entre flocos de neve conferi a encomenda daquela manhã: “James Winston Smith – sete anos – tuberculose- pra ONTEM”. Sei que não é de bom tom levar crianças na data mais emotiva do ano, Herodes que o diga, mas como não sou eu quem dá as cartas do destino, parti com a minha foice disposto a levar a alma daquele pobre garoto.

O quarto do pequeno Jimmy ficava no segundo andar, mas resolvi entrar pela janela da sala da casa. Acidentalmente, porém, minha túnica enroscou no trinco e me desequilibrei. Caí de forma patética derrubando uma singela árvore de Natal armada no canto da sala causando algum barulho. Depois de praguejar xingando a mãe de alguém no inferno, botei a árvore de volta no lugar. Ainda estava arrumando a cena quando o pequeno Jimmy surgiu na escada e me flagrou ajeitando os presentes.

Nossos olhares se encontraram. Um segundo de estranhamento se deu até que do peito frágil do ainda mais frágil menino brotou uma doce voz que eu jamais esqueceria:

– Papai Noel?

Tomado pela presença daquele serzinho magérrimo, raquítico, ridículo, respirando com dificuldade, no último estágio da tísica, pensei em liquidar logo o serviço. Na boa: seria um alívio para ambos. Mas aquele rosto angelical, os olhos enormes como o do Gato do Shrek, reacendeu algo dentro de mim. Fez-me redescobrir um velho coração de manteiga que não me permitiu concluir minha missão. Sim, eu sabia que eu era a Morte, o ceifador cruel e implacável, mas, puta que o pariu, se vocês vissem a cara daquele menino fariam o mesmo. Sem saber o que responder embarquei na triste brincadeira.

– Sim, Jimmy, s-sou eu. O Papai Noel.

Ele me olhou entre a dúvida e o espanto. Tive que ser mais convincente.

– Ho! Ho! Ho!

Após a risada cretina o garoto veio e me abraçou com seus bracinhos magros sob o pijama de ursinhos azuis.

– Papai Noel! Papai Noel! Que bom que você veio! – ele se afastou estranhando a minha roupa – Mas, Papai Noel… você não era gordo?

Tive que ser rápido. Era impossível resistir aos olhinhos brilhantes do pequeno Jimmy.

– É que eu tô de dieta. Cortei carboidratos.

– E a sua roupa não era vermelha?

– Sujei descendo a chaminé.

– E essa foice? É pra quê?

– Por favor, moleque, não pergunta muito não.

Jimmy começou a tossir. Quem o ouvisse diria que daquele dia ele não passava. Se eu fosse menos bunda mole ele não passaria MESMO. Assim que parou, o desmilinguido petiz puxou-me pela manga.

– Qual dessas caixas é o meu presente, Papai Noel?

– Como é que eu vou saber, guri?

– Você não leu minha carta?

– Não. Só o li o seu boletim.

– Da escola?

– Não. O do hospital.

O garoto, rápido, puxou a lista de nomes do meu bolso.

– Uau, você já levou presente pra todas essas pessoas?!

– M-mais ou menos.

– O que você deu pra elas?

– A paz eterna.

– E por que meu nome está aqui?

– Me devolve isso, Jimmy!

Tomei a lista de sua mão e ele teve outro acesso de tosse. A força de vida daquele garoto emocionaria até um deputado corrupto.

– Puxa, Papai Noel, eu estou tão feliz. O Doutor Oliver disse aos meus pais que eu não passaria do Natal.

– Eu sei. Ele é um ótimo médico.

– Ver você aqui hoje é um milagre de natal! Eu sinto que vou viver mais, não vou?

Jimmy me perguntou isso no exato momento em que eu consultava a minha ampulheta de pulso. O último grão de areia da vida do garoto já havia caído. Eu tinha que fazer o meu trabalho. Porém um sino soou ao longe e uma sensação de paz e de amor envolveu meu espírito. Percebi que a vida pode não ter muito sentido, mas o Natal tem, e não seria eu a estragar tão idílico momento. Resolvi dar mais uma chance de vida àquela pobre criança.

– Sim, Jimmy. Você vai viver mais.

– Eu sabia, Papai Noel, eu sabia! – ele me abraçou ainda mais forte – eu sabia que ia viver mais! Muito mais!

– Esse “muito” já é por tua conta, ok?

– Posso abrir meu presente, agora?

Jimmy abriu a maior caixa de todas e de dentro puxou um reluzente barquinho de metal. O pai de Jimmy, um trabalhador das docas de Southampton, caprichara no presente, pois imaginava que seria o último. Qualquer um imaginaria.

– Uau! Obrigado, Papai Noel! Esse é o melhor presente que você já me deu.

– O SEGUNDO melhor. Vai por mim.

– Brinca comigo?

– Jimmy, não posso, eu tenho muitas casas pra visitar ainda hoje.

– Então diz pro vovô John vir brincar aqui comigo!

– Vovô John?

– É. Você não vai passar na casa dele?

– Só na semana que vem.

– Ué, mas semana que vem não é natal.

Eu poderia ter falado do derrame fulminante já pré-marcado do pobre avô do garoto, mas não quis estragar o clima. Já havia tristeza demais por ali. Nem precisei me explicar muito: assim que ouvi os sons dos passos dos pais de Jimmy descendo a escada, despedi-me do garoto falando “fui” e saí voado pela janela. Eu não tinha mais o que fazer ali.

Estava já a dois quarteirões da casa de Jimmy quando começou a me bater o arrependimento por não ter feito o que deveria. Envergonhado pelo meu ato, resmunguei ao vento e soquei minha testa: “Que merda eu tenho na cabeça? Por que fui fazer isso? Você é a morte, animal, a MORTE! Você não pode vacilar desse jeito!”. Foi então me toquei de que havia esquecido a minha foice. Eu precisava voltar. Aquilo, para mim, era quase um sinal divino, um “se manca” de Deus, de que eu deveria retornar e cumprir minha missão. Parti decidido que assim o faria.

Entretanto, a vida sempre surpreende. E é por isso que eu a detesto. Quando me aproximei da janela casa de Jimmy meu ímpeto mudou. Eu vi o menino contando aos seus pais e seus irmãos que Papai Noel havia estado ali. Todos estavam tão surpresos e emocionados com a sua alegria, e ainda mais surpresos por ele ainda caminhar e andar, que não duvidaram. Ao final todos se abraçaram em um momento único de carinho e começaram a cantar juntos “O Tanenbaum” em uma afinação digna de filmes da Disney. A família mais perfeita e unida que eu já havia visto. Aquilo levou lágrimas aos meus olhos e me deu a certeza de que eu havia tomado a decisão correta.

Na hora de abrir os presentes mais alegria: todos ganharam o que desejavam. Havia sido um bom ano, o pai de Jimmy trabalhara muito na construção de um grande navio e deixou para o final o grande presente, a grande surpresa para todos: ele e a família haviam sido premiados com uma passagem para a viagem inaugural do RMS Titanic no ano seguinte. Quando ouvi “Titanic” consultei minha lista de imediato: magicamente o nome de Jimmy e toda a família pularam para abril de 1912.

Suspirei fundo, peguei minha foice de volta, e fui embora enquanto todos dentro da casa ainda vibravam de felicidade. Eu havia salvado o natal, mas… e daí? Não é só isso o que importa nas histórias de natal? O que mais aprendi naquele dia, de verdade, é que até a morte pode ser legal, pode até perdoar e adiar algumas coisas. Já o destino… que filho-da-puta, hein?!