COMEÇANDO PELO FIM

wpid-morterra-2010-04-1-19-44.jpg

Porque o fim é sempre por onde eu começo. Meu trabalho se inicia onde a vidinha de vocês acaba e não adianta olhar de lado fazendo essa cara de “não é comigo” porque ninguém vai escapar. Ninguém!Inevitável é o meu nome, implacável o meu sobrenome, e o meu nome do meio é Anderson, mas isso eu explico depois. Sou o ponto final do destino, o desfecho da existência, a derradeira pulsação, o estertor da história, o ceifador implacável, a certeza inescapável da vida, o game over do imenso video game terrestre. Meu trabalho é cuidar de tudo que finda, murcha, agoniza, expira, termina, cessa, morre, fenece, apaga, empacota. Uma merda de emprego e estou nele por causa de um erro de engenharia cometido pelo adorado Deus de vocês. Sim, porque vocês não passam disso, de um projeto mal sucedido e não finjam que não sabiam.

Para quem ainda duvida basta se olhar nu no espelho, apagar toda e qualquer idéia que tenha sido lhe vendida durante sua curta vida sobre o maravilhoso corpo humano, e perceber, de fato, a porcaria que lhe foi entregue. Não é preciso pensar muito, basta reparar no básico: o prazo de validade de vocês é curto demais, a embalagem da pele é frágil e enruga com o passar dos anos; suas articulações são limitadíssimas, seus joelhos são um desastre mecânico, um erro de projeto grosseiro; os olhos humanos são limitados: além do curto alcance, em menos de vinte anos de uso a maioria precisa de lentes para enxergar o mínimo; os dentes humanos, santo pai, eu teria vergonha de dizer que aquilo algum dia prestou para alguma coisa; o coração tem um sistema de irrigação que entope fácil, o pulmão um sistema de aeração que só suporta um tipo de gás por vez, o fígado é um bom órgão, até cumpre uma nobre função, mas está sobrecarregado pelas porcarias que vocês ingerem, então acaba não durando tanto; o aparelho reprodutor fica muito próximo ao excretor, isto quando não desempenham dupla função o que além de nojento é menos prático do que parece; e, o pior, o pior de tudo: um cérebro ridículo capaz de gerar em vocês a ilusão de que o corpo humano é a “máquina perfeita”. Isto apenas para ficarmos no básico. Em termos tecnológicos o corpo humano é uma máquina feita pela CCE com garantia da Motorola com assistência técnica da Philco. Um serviço muito porco.

Quando qualquer um de vocês resolve discutir sobre isso comigo, puxo sempre meu argumento destruidor: qualquer raça que resulte num Tiririca não pode se considerar um sucesso. Sempre venço a discussão dizendo isso. Sempre. Mas vocês não tem culpa de não saberem tanto quanto eu. Poucos sabem disso, e não me orgulho do que eu vou falar, mas a verdade é que eu fiz parte da equipe que participou da criação de vocês.

Foi uma loucura. Seis dias de projeto, tudo muito corrido, prazo ridiculamente estipulado, quando Deus percebeu que havia criado mais um planeta para nada. O fato era que já haviam outros 456 quatrilhões de estrelas e planetas no universo, uma quantidade absolutamente estúpida de esferas de gás e rochas que ainda não tinham mostrado a que vieram, e Deus havia perdido seis dias em um pedregulho cheio de água que não iria significar nada novamente. A corda iria arrebentar para algum lado, um plano de emergência foi engendrado, e eu não gostei nada quando Deus nos reuniu para mostrar uma keynote de última hora, um projeto que ainda não tinha nome, mas que viria ser a humanidade. Ou, como nós chamávamos carinhosamente pelos corredores, projeto MST: “Merda Sem Tamanho”.  

Na apresentação de Deus tudo era lindo e simples. Porque para Deus tudo sempre é lindo e simples. Ele teve a radiante idéia de fazer uma cultura de bactérias melhorada, que é mais ou menos como eu ainda vejo vocês, para povoar o tal planetinha. Criou o homem em um dia, à imagem e semelhança dele, mas tirando uma das bundas. Alguém da reunião perguntou como aquele homem iria povoar o planeta sozinho. Os olhos de Deus brilharam nesse momento, já que ele pode falar pela primeira vez do DNA, uma molécula auto-replicante que cuidaria de tudo. Deus já tinha tudo planejado: faria uma fêmea chamada mulher que ajudaria o homem a se se reproduzir automaticamente, sem interferência divina. “Basta dois deles e o DNA faz todo o resto”, ele disse.

“O ato sexual será a melhor coisa da vida deles, assim será impossível eles não reproduzirem”, exultava feito um Steve Jobs apresentando um novo produto. Na hora concordei, parecia mesmo uma ótima idéia. O DNA é realmente fantástico para produzir e replicar vários de vocês. Porém caí na burrada de perguntar: “E como é que se faz para desligar esse troço? Se o ato reprodutivo for tão prazeroso quanto se imagina, a Terra estará logo lotada”. Deus olhou para mim, deu um tapinha no meu ombro e disse: “é aí que você entra”. 

Se eu tivesse idéia do trabalho que esta simples frase me daria dali em diante eu teria mandado-O pastar na hora e pedido demissão logo em seguida. Para salvar o planeta Deus me deu a incumbência de cuidar de vocês assim que o corpo humano começasse a falhar com o tempo, está tudo programado. Reclamei dizendo que era muito serviço para mim, que eu não poderia esperar que vocês morressem apenas de velhice, e que essa idéia era inviável. Um mundo onde todos vivessem mil anos seria um pesadelo, um lugar onde ninguém mais conseguiria utilizar um banco 24 horas sem perder dois dias numa fila. 

Então, atendendo meus apelos, Deus resolveu chamar um anjo que estava passando por ali, um que eu nunca tinha visto na vida, para acelerar as coisas. O anjo foi designado para estimular vocês a se odiarem, enfiarem coisas um nos outros, se explodirem, e a trollar no twitter sem qualquer motivo. O nome dele era Lúcifer, se não me engano, e também não gostou da idéia logo de cara. Reclamou ainda mais quando sua sala de trabalho foi deslocada para um lugar muito quente, sem ar-condicionado, e com gente em danação eterna por todos os lados. 

Tudo resolvido, Deus nos deu as costas e fala muito pouco com a gente, quase nada. Se esse lado caladão de Deus irrita a vários de vocês, imagine a mim que trabalho com Ele uma sempiternidade. E a sempiternidade, acreditem, é muito tempo. Dêem uma olhada no dicionário.

O resto vocês já sabem. Adão e Eva até que se comportaram bem, mas já na segunda geração deu merda: um irmão matou o outro e depois disso não parei mais. Quanto mais de vocês eu levo, mais de vocês nascem, e isto ainda vai durar um tempo.

Não posso dizer que o projeto não tenha tido um certo sucesso, mas se eu fosse Deus faria um recall em breve. Só que este é outro assunto e tenho que voltar ao trabalho agora. Vou começar pelo fim de alguém, o de qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer momento, pode ser até o seu que me lê neste momento. Afinal, para você a morte até pode ser o fim de tudo, mas é apenas o que eu faço depois que tomo o meu primeiro café do dia. A morte, pra mim, é quando tudo começa.

Anúncios

7 pensamentos sobre “COMEÇANDO PELO FIM

  1. Ri pakas!!!
    Continuarei a ler o resto do blog e vendo que a morte se ferra mais do que a gente em vida!

    Até daki uns 70 anos, fera!

  2. Não vai durar muito… Do jeito que a coisa vai, de tanta gente, uma hora a curva do crescimento vegetativo vai sofrer uma queda vertiginosa: a Morte vai ter um trabalhão, mas depois as coisas vão ficar tranquilas…

  3. Nossa Morte, eu nunca tinha visto nossa criação com uma perspectiva tão hostil, pegou pesado heim?
    Mas tendo em vista o desenvolvimento de seu trabalho e o fato de você não poder tirar férias, não poder se aposentar nem por tempo de trabalho e nem por idade e você há de convir que nesta idade você poderia se aposentar e ficar coçando pela eternidade né?
    Não pode tirar um descanso, dar uma surfadinha, afinal com certeza mesmo sendo onipresente sua atividade será interrompida por algum humano estupido que resolveu limpar a arma só para variar.
    Enfim diante deste trabalho tão exaustivo, posso até aceitar sua hostilidade conosco méros humanos, que podemos tirar férias, surfar, nos aposentar e ganhar a ninharia paga pelo Governo safado do Brasil e ainda por cima um dia teremos um encontro perfeito contigo, alguem tão intelectual, esperto e acima do bem e do mal.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Parabens Morte.
    E por favor espero que me erre por muitos e muitos anos, ou como você mesmo diz me erre pela sempiternidade.
    Bjs,
    Elaine Correia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s