AQUELA CARTA QUE VOCÊ ME ESCREVEU

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Minha opinião sobre a humanidade não é das melhores. Sempre digo que se a Terra fosse um imenso corpo humano eu seria o Activia que aceleraria a saída de vocês. Deduzam o resto.

A raça humana é patética, frágil, iludida, insignificante, pusilânime, babaca, sem noção, e só digo isso porque estou de bom humor hoje. Se eu desse a real ninguém aguentaria o tranco e cortaria os pulsos agora mesmo, o que nunca considero uma má idéia, desde que vocês não façam isso na hora da novela. Porém, para suportarem tamanha falta de importância e sentido na vida, a humanidade desenvolveu um mecanismo de defesa que funciona até certo ponto: a vaidade.

A mais humana das qualidades, e justamente por isso uma das piores, a vaidade é capaz de torná-los mais sensíveis, mais divertidos, mais ridículos, e eu estaria cagando para ela caso não afetasse meu trabalho ocasionalmente. Sim, porque somente a vaidade explica a preocupação exagerada de alguns de vocês em escrever frases de efeito em cartas ou bilhetes de suicídio, algo que me irrita MUITO. Porque neguinho passa a vida inteira escrevendo no Orkut coisas do tipo “Genti, çaí cuns miguxos onti e foi di-maizzz!!!!” e na hora que vai empacotar vem querer dar uma de que sabe escrever bonito? Não fode! Pegue um post-it e rascunhe um “fui!” pra ninguém perceber seu português meia-boca e estamos combinados.

Quando o cara começa a demorar demais na carta de despedida eu chego até a me intrometer antes do momento devido. Foi o caso de um famoso presidente brasileiro.

— Chega, Getúlio, já estamos há cinco horas nisso. Largue essa carta.

— Não antes de eu escrever minha última grande frase.

— Não precisa, tá bom assim.

— Não dá. Eu não vou me matar antes de escrever uma frase final perfeita.

— Haja saco. Onde foi que você parou?

— Nessa frase aqui ó: “Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço minha morte”

— Beleza. Tá lindão.

— Tá mesmo?

— Tá. Não escreve mais nada que estraga.

— Jura?

— Juro. Me arrepiei. Agora pegue esse revólver e se mate.

— Não sei, não estou satisfeito ainda. Que tal se eu fechasse a carta com “serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade”?

— Melhor ainda!

— Acha mesmo?

— Acho. Agora SE MATE!

— Não, ainda não. Ainda tenho a impressão de que não é a frase ideal…

— Mas que merda de frase você quer escrever?

— Uma que valha a pena. Meu medo é abandonar a vida e ninguém se lembrar, não ficar na história.

— Então escreva isso.

— O quê?

— Que você sai da vida para entrar na história.

— Será? Mas não soa um pouco piegas?

— Soa como brega mesmo. Mas morto todo mundo perdoa. Pode escrever.

— “Saio da vida para entrar na história”. Taí, gostei.

— Ótimo.

— Eu gostei muito.

— Que bom.

— Sério, eu adorei, gostei demais.

— Perfeito.

— Ficou tão bom que me fez repensar o meu ato, me deu até ânimo de continuar vivendo. Acho que não vou me matar mais.

— AH, NÃO, MAS NEM FUDENDO!

Eu peguei o revólver e… bem, o resto vocês já sabem. Até hoje muita gente não entende porque Getúlio Vargas deu um tiro no peito e não na cabeça, mas eu nem preocupei com esse detalhe na hora. Eu precisava botar isso pra fora. Ufa!

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21 pensamentos sobre “AQUELA CARTA QUE VOCÊ ME ESCREVEU

  1. Na verdade não é DONA e sim Dom Morte! rs
    Criatividade master, mas… tá ganhando algo, monetariamente, com isso!?
    Se sim, parabéns!
    Se não, move it!
    Abx

  2. Morte, ótima descrição do triste fim de Getulio.
    Amei a riqueza de detalhes.
    Bjs,
    Elaine

  3. Melhor blog. Eu passo mal de rir aqui! Mt criativo, parabéns, haha :)

  4. Acabo de listar no meu blog “Kara Ystúpido”, este blog daqui.

    Quanto à pergunta feita anteriormente sobre a sua sexualidade, percebi agora que se trata de um “ser” masculino. Afinal, no seu perfil, tu és “apreciador” do contato humano. O que dispensa respostas.

    Tão logo não se trata de um epiceno ou sobrecomum. :)

  5. Muito bom! Fiz um trabalho sobre a vida de GV e sempre me perguntei sobre esse tiro no peito. Esta esclarecido agora!

  6. A revista Veja lançou uma matéria nesta semana sobre o novo código de ética médica que consiste em abreviar a morte de pacientes eme stado vegetativo e terminal. O que a senhora acha disso?

  7. Ahh as pessoas … que curiosos os comentários. Ah sim, eu prefiro comentar os comentários do que o texto em si, desculpe. É claro que a morte tem senso de humor, humor negro que seja, mas sempre tem. Claro que a morte também escreve bem, todos tão óbvios. Mas é assim mesmo, em que pese dizerem o contrário, todos flertam com a morte em algum momento da vida, curioso, muito curioso…

  8. Comecei a ler seu blog hoje…. suuuper engraçado essas mortes!! shahsua

  9. Sou leitor assiduo e nunca achei que fosse dizer isso, mas a morte é uma boa escritora! Muito bom o texto!
    E pode deixar que meu post-it já pronto, por via das dúvidas.

  10. Ta sempre mudando de ninho é?
    Me divertindo por aqui.
    Bom saber que a Morte tem senso de humor.

    bjos

    não me siga :)))

  11. Dona morte, além de exercer um trabalho de responsa, escrever bem pra caralho! Parabéns, viu!

  12. Cara, você é o que há de melhor na web. Na web, ok??? Fica longe, me esquece!!!

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