CANÇÕES DO ALÉM – O PORTÃO

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A música brasileira me ignora. O cagaço dos músicos deste país diante do destino certo é tão grande que dá pra contar nos dedos da mão de um presidente ex-metalúrgico as canções que tem a morte como tema principal. “O Portão”, de Roberto Carlos, é exceção à regra. Mesmo sendo uma das músicas mais populares do Rei, pouquíssimos fãs captaram o sentido real de sua letra que narra, muito claramente, uma jornada sobrenatural.

A começar pelo primeiro verso de onde foi retirado o nome da obra.

Eu cheguei em frente ao portão

O estranhamento já começa aqui. Por que, afinal, a música se chama “O Portão” quando o mais correto seria batizá-la de “Eu voltei”, “A Volta”, “Retorno”, “Tô de novo no pedaço!”ou algo do tipo? A resposta é tão óbvia que chega a ser insultante. Roberto sabia disso e deixou uma pista já no título. O personagem principal desta música não voltou para casa, ele apenas ACHA que voltou, devido ao mais prosaico dos motivos: ele está MORTO! Sim, trata-se de uma alma penada. O verso seguinte já reforça esta triste constatação.

Meu cachorro me sorriu latindo

Primeiro, o óbvio: a menos que este seja um dono desnaturado, algo que Roberto Carlos não aceitaria em uma canção sua, para mim está claro que este cara foi para um lugar onde ele NÃO PODERIA levar seu cachorro. Segundo, o menos óbvio: o cachorro sorriu para o nosso personagem, uma pequena licença poética para um provável abanar de rabo, uma reação alegre ao ver o seu dono. O detalhe dissonante é que o cão latiu, o que é curioso, porque normalmente cachorros latem para estranhos. Chegamos, portanto, a um pequeno paradoxo: por que um cachorro reagiria FELIZ a alguém que ele ESTRANHOU?

Ora, todo mundo sabe que os animais conseguem enxergar coisas que os limitados olhos humanos jamais vislumbrariam. O que este verso deixa explícito é que este cãozinho está enxergando o ectoplasma esbranquiçado do seu antigo dono parado em frente ao portão. Uma estranha e fantasmagórica presença que confunde a cabeça do pequeno dogue. Afinal este cão deve ter visto o velório na casa, acompanhado o enterro, essas coisas. Pobre animal.

Minhas malas coloquei no chão

Eu voltei

Não se deixem ludibriar pelo falso realismo deste verso. Soltar as malas no chão é apenas um simbolismo, o gesto de quem está querendo se livrar de um peso antes de atravessar um portal (notem a similaridade entre portão/portal). Significa que o personagem desencarnado quer deixar para trás a dor que carrega, não quer levar para dentro de seu antigo lar os problemas do mundo dos mortos. Que, acreditem, não são poucos. Trata-se de um mero despiste metafórico, O ÚNICO da canção inteira. Mas ainda assim está totalmente inserido no contexto da canção.

Tudo estava igual como era antes

Quase nada se modificou

Acho que só eu mesmo mudei e voltei

O que há de tão diferente nele diante de tudo que o cerca agora? E mais: por que por que ele acha que APENAS ele teria mudado? Ao que parece, esse personagem está morto, mas NÃO SABE que está. Tal como o personagem do Bruce Willis em “O Sexto Sentido”, o sujeito desta canção nega a si mesmo que já virou adubo e quer de volta sua vida de antes. Resumindo: trata-se de um puta dum ENCOSTO! Problemaço cujo refrão deixa mais do que explícito:

Eu voltei agora pra ficar!

Porque aqui, aqui é o meu lugar!

Eu voltei pras coisas que eu deixei!

Eu voltei!

Quem já participou de uma sessão espírita, ou de possessão, sabe como os espíritos podem ser renitentes. Todos eles dizem frases como essas, “eu vou ficar!”, ou “daqui não saio”, ou “deixei minhas coisas aqui”. Trata-se claramente de um espírito perturbado do tipo que não sairá do ambiente nem se fizerem faxina com um buquê de arruda e sal grosso.

Fui abrindo a porta devagar.

Mas deixei a luz entrar primeiro

Todo meu passado iluminei.

E entrei.

Que tipo de pessoa chega depois de tanto tempo e vai abrindo a porta devagar sem bater, sem tocar a campainha, sem usar chaves, sem avisar, nem nada? Tudo muito estranho para alguém de carne e osso. Mas nada incomum pra quem já é um gasparzinho faz tempo. Notem o clima da porta se abrindo lentamente, a luz entrando, o mistério… faltou só o ranger de dobradiça para se tornar uma autêntica cena de filme de terror.

Meu retrato ainda na parede

Meio amarelado pelo tempo

Como a perguntar por onde andei

E eu falei.

Quem, em sã consciência, fala com um retrato? Ora, quem não pode SER OUVIDO POR NINGUÉM, é claro! É a imagem perfeita da solidão de uma alma penada que não tem com quem conversar. Há um leve desespero aqui. Eu aposto que em poucas semanas este espírito se revoltará por não ser ouvido e começará a abrir e fechar armários, derrubar copos, sumir com chaves, aparecer em espelhos pela casa. Poltergeist vai ser pinto perto do que este ectoplasma está prestes a fazer.

Onde andei não deu para ficar!

Porque aqui, aqui é o meu lugar!

Eu voltei pras coisas que eu deixei!

Eu voltei!

Aqui fica claro que esta alma não gostou do lugar para onde foi. Dá para deduzir que ela não se dirigiu para a luz quando deveria e foi parar no LIMBO, o lugar “onde não deu para ficar”. E, convenhamos, o limbo é um saco. De fato, existem lugares muito melhores, até o inferno é mais divertido, pelo menos lá os bares fecham mais tarde.

Sem saber depois de tanto tempo

Se havia alguém a minha espera

Passos indecisos caminhei

E parei

Outra atitude estranha para alguém vivo, mas normal para um colega do Pluft. Se ali era a casa dele, como ele não saberia se alguém o espera? O que este verso revela, numa leitura mais atenta, é um ato falho. Este personagem no fundo sabe que NINGUÉM O ESPERA porque ele já tá comendo grama pela raiz há muito tempo. Os passos indecisos revelam a insegurança de quem não tem coragem de enfrentar a verdade. Afinal, quem é vivo sempre aparece e este cara NÃO VAI aparecer. Chegamos então à última e mais polêmica estrofe.

Quando vi que dois braços abertos

Me abraçaram como antigamente

Tanto quis dizer e não falei

E chorei

A estranheza destes versos revela algo muito mais perturbador do que se imagina. Reparem que o “quando vi” marca uma aparição repentina tanto na música quanto para o personagem. Os “braços abertos” surgem do nada, sem dizer olá, como vai, como foi, e o abraçam, caindo de pára-quedas na canção. Pergunto: isto é normal? E por que o personagem não diz de quem são esses braços? Ele apenas se virou e deu de cara com alguém de braços abertos querendo abraçá-lo como antigamente? Que raio é isso?

Para mim está claro que estes braços são de outro personagem, uma outra presença dentro da casa. Certamente é algum ESPÍRITO-GUIA que surge do nada, como costumam fazer espíritos-guia, e tenta tirar nosso personagem à força dali. O clima da música é claro: nosso personagem chora e repete o refrão dizendo que “ele voltou e ali é o seu lugar”. Sim, é uma briga. Até o tom da voz de Roberto sobe neste auge da música. Um clímax perfeito.

O máximo que este outro espírito consegue, entretanto, é arrastar nosso personagem para fora da casa e deixá-lo outra vez em frente ao portão. Tanto que os dois últimos versos da canção repetem os dois primeiros.

Eu cheguei em frente ao portão

Meu cachorro me sorriu latindo

O que significa que nosso personagem, na maior tradição dos encostos, continuará rondando em volta da casa até entrar novamente, numa eterna danação, ou até que os donos ainda vivos resolvam contratar um padre exorcista ou uma benzedeira. Ele não desistirá. O caso real de Amityville começou assim. Se eu fosse Hollywood compraria esta história.

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13 pensamentos sobre “CANÇÕES DO ALÉM – O PORTÃO

  1. buena essa musica. fiquei imaginando se aq no meu portão tem algum esperito assim, relutante em voltar, por mais q eu saiba q daq ninguem saiu, vixiii

  2. Rachei a análise da música é ótima e me deixou com mais medo, quer dizer, respeito à vc, Seu Morte!

    Até nunca!

  3. Faltou dizer mais sobre retratos amarelados. Minha mãe sem-pre fala que depois que alguém te encontra, as fotos deixadas ficam amareladas, ainda que não sejam velhas. E eu constato. É fato. Viu @RealMORTE, as fotos ficam amarelas.Argumento a favor da sua (maravilhosa)interpretação.

  4. porra, adoro essa música, mas nunca mais vou ouvi-la como antes…. tu é foda, morte… adoro. rsssssss

    aliás, há uns dois anos eu e vc nos olhamos olhos nos olhos e vc me rejeitou…. graças ao criador. espero demorar muiiito a te encontrar novamente.

    abraços virtuais!

  5. O que foi que vc fez com a galera de Amityville??? Por favor na minha hora, me convença a ir de vez!!

  6. Analise também a canção “A Ida” da Plebe Rude, ela fala da morte muito mais veladamente.
    O Portão foi muito bem analisada!!! Valeu o RT que dei!!!

  7. Uma dica para outro post da série “Canções do Além”: Encontros e Despedidas. Lembra de algo que você não curte muito, a reencarnação. Pra gente, mais uma chance. Pra você, retrabalho.

  8. PARABÉNS!!! Achei super criativo seu blog. Descobri esta semana e agora fiquei fã.
    Mas, apesar disso, pode ficar por aí, longe daqui, OK?

    Ah! Já li ‘A Menina que roubava livros’. Parece que Vossa Senhoria tomou gosto pela escrita, né? Rs.

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