A MORTE BATE À SUA PORTARIA

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Final de tarde num condomínio da Barra da Tijuca. A dona da casa atendeu um insistente interfone. Do outro lado linha, a voz anasalada e de sotaque nordestino do porteiro deu-lhe o recado mais estranho de sua vida.

— Dona Lucília?

— Diga, seu Romildo.

— Olha só, tem um hómi aqui na portaria que quer falar com a senhora. Ele tá dizendo que é a MORTE.

— A Morte? Como assim “A Morte”?!

— Ele não falou mais nadica. Só disse que é a Morte.

— Mas como é que alguém pode ser A Morte, seu Romildo? Como é que ele é?.

— Alto, magriinho, roupa preta, capuchinho, e um facão grande na mão.

— Uma foice?

— Isso, esse troço aí, num lembrava o nome.

— E ele disse que quer falar comigo?

— Ele num falou com quem veio falá não. Disse só que veio buscar uma encomenda no endereço da senhora e que é coisa rápida.

— R-rápida?! Tá. Só um minuto.

O marido lia a colorida página de esportes do Globo quando a mulher entrou apavorada na sala.

— Carlos Alberto, problema: a Morte está na portaria do nosso condomínio dizendo que veio buscar uma encomenda aqui em casa.

— Jura? — disse o homem baixando o jornal — Será que ele veio buscar a sua mãe?

— Carlos Alberto, por que quando se fala em morte aqui em casa você sempre pensa na minha mãe?!

— Lógica, ué? Ela já está com um pé na cova faz tempo.

— Ela nem mora aqui.

— Mas a gente pode ligar pra ela vir. Deixa que eu ligo.

— Largue este telefone AGORA, Carlos Alberto! Que é que é isso? Não é assim que funciona. Eu sempre li que a Morte tem hora certa.

— E, mas sua mãe já passou da hora.

— Quer parar de falar na minha mãe?! A Morte está na NOSSA portaria.

— E daí?

— E daí que ela pode ter vindo busca um de nós dois. Por que não? Por que não pode ser a SUA hora?

— A minha? Impossível. Estou vendendo saúde.

— Mas tem colesterol alto.

— 180 não é alto! E eu tomo estatina! Você é quem pode empacotar antes de mim.

— Eeeeeeu? De onde você tirou essa idéia?

— Genética. Seus parentes morrem feito hamsters.

— Isso não é verdade.

— Lucília, só do lado da família do seu pai tem uns cinco derrames que eu me lembre. Na sua família quem passa dos cinquenta é quase um Highlander!

— Discordo, “querido”. Quem irá no seu enterro sou eu e não o contrário.

— Ah é, “querida”? Já que você está tão segura, por que VOCÊ não vai à portaria e pergunta pessoalmente quem a Morte veio buscar?

Um pio de pássaro se ouviu ao longe durante o curto silêncio da mulher. Que acabou se irritando de vez.

— Carlos Alberto, eu já atendi o interfone. Será que eu tenho que fazer tudo nessa casa? Custa levantar a bunda da cadeira de vez em quando?

—Se custar a minha vida, custa.

No meio da discussão um adolescente de bermudão xadrez e ouvindo Ipod surge deslizando num skate.

— Pai, mãe, vou andar de skate com o Batata!

— JÁ PRO QUARTO AGORA! – Explodiram os dois.

O moleque assustado enfiou o skate debaixo do braço e sumiu corredor adentro. Quinze minutos de bate-boca, e alguns vasos quebrados depois, o casal decidiu conversar com a empregada na cozinha.

— Entendeu, Elvânia? É só ir lá na portaria e perguntar que encomenda esse sujeito veio buscar.

— Mas não vai atrasar o meu serviço?

— Deixa atrasar! — disse o marido já aflito e empurrando a empregada para a porta — Vai logo que ele deve estar impaciente. Esse cara veio de longe.

— De onde, Seu Carlos?

— Alguns dizem que ele é do limbo, outros dizem que é do céu, mas também pode ser do infer…

Lucília pigarreou furiosa fulminando o marido com o olhar. Carlos Alberto suspirou.

— Ele é de Minas, Elvânia. Itajubá.

— Ai, jura? Adoro o povo de lá!

A empregada saiu toda animada. Minutos que pareceram dias se sucederam até o silêncio ser cortado pelo interfone da cozinha. O porteiro novamente.

— Dona Lucília, só pra dizer, o hómi já foi embora, visse? Parece que ele cansou de esperar e sumiu.

O casal respirou aliviado. O marido até fez um sinal da cruz.

— Ai, que ótima notícia, seu Romildo. Obrigada. Agora, por favor, peça para a Elvânia voltar.

— Pois é, Dona Lucília, isso que eu ia falar. O homem foi embora, mas a empregada da senhora teve um piripaque e caiu durinha aqui na frente da calçada. Não tá nem se mexendo. Já chamei ambulância e tudo.

A mulher desligou o interfone ainda impressionada com a experiência. O casal se abraçou num gesto automático. Ambos emocionados por terem escapado de uma visita do Fim de Todos. Mas, ainda que quisessem, não conseguiriam ignorar a tristeza onipresente. Eles sabiam que a vida nunca mais seria a mesma. Sabiam que naquele instante a Morte ria às gargalhadas em algum lugar do além. Afinal, os dois tinha a consciência de que arrumar um novo marido ou uma nova esposa não é algo tão complicado assim. Porém, tentar arrumar uma empregada nova no Rio de Janeiro é um castigo divino. A danação eterna estava apenas começando…

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20 pensamentos sobre “A MORTE BATE À SUA PORTARIA

  1. Rio e Sampa deve ser assim: a empregada aparece no 1º dia ; no 2º dia ela fuma um baseado na areá de serviço e no 3º dia ela some, ela e mais algumas coisa da casa. rsrrsrs

  2. Ahahaha tbm sou de Itajubá, estranhei ver o nome da cidade aqui no blog! Já moro no inferno e não tô sabendo? kkkk

  3. Estava lendo e no dialogo que o homem tem com a emprega,no qual diz que o rapaz que esta na portaria é de Itajubá..sabe?

    Então,eu sou de itajubá..e gostaria de saber pq vc mencionou itajubá?minha curiosidade é devido por ninguem conhecer a cidade direito..ashuhashuasuhas..
    ate mais..espero resposta

  4. Amiga, Morte.
    Você não é HOMEM, você é MULHER. Para com essa crise de identidade e aceita que você é como nós!

  5. HAHAHAH
    Morte, muito boa essa!
    Não pude deixar de comentar, eu sou de Itajubá HAHAHAH
    Anda fazendo muitas visitas por lá?
    :o

  6. Ai meu Deus!! Que ótima essa!!!
    Acho que a morte tava precisando de uma boa empregada tb viu!!!

  7. Que bom reler seus textos… maravilhosos e cheios de humor! Adoro!!!

  8. Hahahahahahahahaha!
    Tenho certeza que estão até agora sofrendo com a falta de uma boa empregada!!!
    Melhor castigo que esse?Não tem…

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