O MILAGRE DA CASA 58

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Nevava muito naquela pequena vila inglesa na manhã do Natal de 1911. Eu, a Morte, o ceifador cruel e implacável, o senhor absoluto da vida e das trevas, parei em frente ao pequeno sobrado de tijolos à vista com chaminé e um telhado cinzento coberto de gelo e fuligem. Na porta de madeira, pintado à mão, um rústico número 58. Tirei minha lista do bolso e entre flocos de neve conferi a encomenda daquela manhã: “James Winston Smith – sete anos – tuberculose- pra ONTEM”. Sei que não é de bom tom levar crianças na data mais emotiva do ano, Herodes que o diga, mas como não sou eu quem dá as cartas do destino, parti com a minha foice disposto a levar a alma daquele pobre garoto.

O quarto do pequeno Jimmy ficava no segundo andar, mas resolvi entrar pela janela da sala da casa. Acidentalmente, porém, minha túnica enroscou no trinco e me desequilibrei. Caí de forma patética derrubando uma singela árvore de Natal armada no canto da sala causando algum barulho. Depois de praguejar xingando a mãe de alguém no inferno, botei a árvore de volta no lugar. Ainda estava arrumando a cena quando o pequeno Jimmy surgiu na escada e me flagrou ajeitando os presentes.

Nossos olhares se encontraram. Um segundo de estranhamento se deu até que do peito frágil do ainda mais frágil menino brotou uma doce voz que eu jamais esqueceria:

– Papai Noel?

Tomado pela presença daquele serzinho magérrimo, raquítico, ridículo, respirando com dificuldade, no último estágio da tísica, pensei em liquidar logo o serviço. Na boa: seria um alívio para ambos. Mas aquele rosto angelical, os olhos enormes como o do Gato do Shrek, reacendeu algo dentro de mim. Fez-me redescobrir um velho coração de manteiga que não me permitiu concluir minha missão. Sim, eu sabia que eu era a Morte, o ceifador cruel e implacável, mas, puta que o pariu, se vocês vissem a cara daquele menino fariam o mesmo. Sem saber o que responder embarquei na triste brincadeira.

– Sim, Jimmy, s-sou eu. O Papai Noel.

Ele me olhou entre a dúvida e o espanto. Tive que ser mais convincente.

– Ho! Ho! Ho!

Após a risada cretina o garoto veio e me abraçou com seus bracinhos magros sob o pijama de ursinhos azuis.

– Papai Noel! Papai Noel! Que bom que você veio! – ele se afastou estranhando a minha roupa – Mas, Papai Noel… você não era gordo?

Tive que ser rápido. Era impossível resistir aos olhinhos brilhantes do pequeno Jimmy.

– É que eu tô de dieta. Cortei carboidratos.

– E a sua roupa não era vermelha?

– Sujei descendo a chaminé.

– E essa foice? É pra quê?

– Por favor, moleque, não pergunta muito não.

Jimmy começou a tossir. Quem o ouvisse diria que daquele dia ele não passava. Se eu fosse menos bunda mole ele não passaria MESMO. Assim que parou, o desmilinguido petiz puxou-me pela manga.

– Qual dessas caixas é o meu presente, Papai Noel?

– Como é que eu vou saber, guri?

– Você não leu minha carta?

– Não. Só o li o seu boletim.

– Da escola?

– Não. O do hospital.

O garoto, rápido, puxou a lista de nomes do meu bolso.

– Uau, você já levou presente pra todas essas pessoas?!

– M-mais ou menos.

– O que você deu pra elas?

– A paz eterna.

– E por que meu nome está aqui?

– Me devolve isso, Jimmy!

Tomei a lista de sua mão e ele teve outro acesso de tosse. A força de vida daquele garoto emocionaria até um deputado corrupto.

– Puxa, Papai Noel, eu estou tão feliz. O Doutor Oliver disse aos meus pais que eu não passaria do Natal.

– Eu sei. Ele é um ótimo médico.

– Ver você aqui hoje é um milagre de natal! Eu sinto que vou viver mais, não vou?

Jimmy me perguntou isso no exato momento em que eu consultava a minha ampulheta de pulso. O último grão de areia da vida do garoto já havia caído. Eu tinha que fazer o meu trabalho. Porém um sino soou ao longe e uma sensação de paz e de amor envolveu meu espírito. Percebi que a vida pode não ter muito sentido, mas o Natal tem, e não seria eu a estragar tão idílico momento. Resolvi dar mais uma chance de vida àquela pobre criança.

– Sim, Jimmy. Você vai viver mais.

– Eu sabia, Papai Noel, eu sabia! – ele me abraçou ainda mais forte – eu sabia que ia viver mais! Muito mais!

– Esse “muito” já é por tua conta, ok?

– Posso abrir meu presente, agora?

Jimmy abriu a maior caixa de todas e de dentro puxou um reluzente barquinho de metal. O pai de Jimmy, um trabalhador das docas de Southampton, caprichara no presente, pois imaginava que seria o último. Qualquer um imaginaria.

– Uau! Obrigado, Papai Noel! Esse é o melhor presente que você já me deu.

– O SEGUNDO melhor. Vai por mim.

– Brinca comigo?

– Jimmy, não posso, eu tenho muitas casas pra visitar ainda hoje.

– Então diz pro vovô John vir brincar aqui comigo!

– Vovô John?

– É. Você não vai passar na casa dele?

– Só na semana que vem.

– Ué, mas semana que vem não é natal.

Eu poderia ter falado do derrame fulminante já pré-marcado do pobre avô do garoto, mas não quis estragar o clima. Já havia tristeza demais por ali. Nem precisei me explicar muito: assim que ouvi os sons dos passos dos pais de Jimmy descendo a escada, despedi-me do garoto falando “fui” e saí voado pela janela. Eu não tinha mais o que fazer ali.

Estava já a dois quarteirões da casa de Jimmy quando começou a me bater o arrependimento por não ter feito o que deveria. Envergonhado pelo meu ato, resmunguei ao vento e soquei minha testa: “Que merda eu tenho na cabeça? Por que fui fazer isso? Você é a morte, animal, a MORTE! Você não pode vacilar desse jeito!”. Foi então me toquei de que havia esquecido a minha foice. Eu precisava voltar. Aquilo, para mim, era quase um sinal divino, um “se manca” de Deus, de que eu deveria retornar e cumprir minha missão. Parti decidido que assim o faria.

Entretanto, a vida sempre surpreende. E é por isso que eu a detesto. Quando me aproximei da janela casa de Jimmy meu ímpeto mudou. Eu vi o menino contando aos seus pais e seus irmãos que Papai Noel havia estado ali. Todos estavam tão surpresos e emocionados com a sua alegria, e ainda mais surpresos por ele ainda caminhar e andar, que não duvidaram. Ao final todos se abraçaram em um momento único de carinho e começaram a cantar juntos “O Tanenbaum” em uma afinação digna de filmes da Disney. A família mais perfeita e unida que eu já havia visto. Aquilo levou lágrimas aos meus olhos e me deu a certeza de que eu havia tomado a decisão correta.

Na hora de abrir os presentes mais alegria: todos ganharam o que desejavam. Havia sido um bom ano, o pai de Jimmy trabalhara muito na construção de um grande navio e deixou para o final o grande presente, a grande surpresa para todos: ele e a família haviam sido premiados com uma passagem para a viagem inaugural do RMS Titanic no ano seguinte. Quando ouvi “Titanic” consultei minha lista de imediato: magicamente o nome de Jimmy e toda a família pularam para abril de 1912.

Suspirei fundo, peguei minha foice de volta, e fui embora enquanto todos dentro da casa ainda vibravam de felicidade. Eu havia salvado o natal, mas… e daí? Não é só isso o que importa nas histórias de natal? O que mais aprendi naquele dia, de verdade, é que até a morte pode ser legal, pode até perdoar e adiar algumas coisas. Já o destino… que filho-da-puta, hein?!