UMA NOITE NA SAPUCAÍ

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O nome do sujeito era Adaílton e em sua ficha estava escrito apenas “Sambista – Cirrose”. Típico. O cara bebia tanto, mas tanto, que no lugar do seu fígado devia ter um buraco com um bilhetinho escrito “Desisto. Fui.”. Seu empresuntamento estava marcado para aquele fatídico sábado de carnaval e compareci no horário em seu barraco. Mas ele não. Quando bati em sua porta uma vizinha enxerida esticou o pescoço por cima do muro e me disse que o tal Adaílton não estava lá. Àquela hora ele já deveria estar no Sambódromo e sua escola de samba pronta pra entrar na avenida. Ela ainda me acelerou: “Vai logo você também. Devem estar te esperando!”. Não entendi bulhufas. Deixei pra lá e fui pra Sapucaí atrás do pré-defunto.

Cheguei na concentração das escolas e aquilo estava muito cheio. Lembrava-me o oitavo círculo do inferno, só que mais quente. Perguntei pelo Adaílton, mas ninguém me dava atenção. Estava todo mundo tenso, arrumando coisas na última hora, o pessoal da bateria tomando bronca, correria de aderecista pra lá, de maquiador pra cá, e eu fui tratado na patada por todo mundo. Já estava puto e pensando em reclamar com o pessoal da LIESA quando um negrão de dois metros de altura me segurou pelo braço e falou “Aí, mané, tá fazendo o quê aqui? Vai pro seu lugar! A gente já vai entrar!”. “Que meu lugar?” – estranhei – mas ele não respondeu e já foi me empurrando por um aglomerado de gente fantasiada, mulheres com plumas, carros alegóricos, até me largar em uma ala cheia de gente fantasiadas de MORTE.

Surpresa total. Havia uma “Ala da Morte” para ilustrar enredo da escola aquele ano. Era composta por umas duzentas pessoas de roupa preta, máscara de caveira, e foice na mão. Foi então que entendi porque a vizinha do Adaílton me apressou. O problema é que a fantasia de todos ali dava de dez no que eu estava vestindo. Fiquei meio envergonhado. Perto deles a minha roupa parecia algo comprado na Renner em cinco prestações. As túnicas de todos ali era cheia brilhos, lantejoulas, paetês, e a foice era toda de prata. Viadagem pura, claro. Mas carnaval sem viadagem não é carnaval.

Um carnavalesco afetadíssimo surgiu no meio de todo mundo e botou ordem no pedaço. A biba gritava com uma euforia que beirava a psicopatia: “Vamos lá, gente! Hoje é dia de luz! Muita luz! Muito sucesso! Vamos que esse ano é nosso! Ninguém tira esse campeonato da gente! Quero ver todo mundo dando sangue! Quero ver todo mundo sambando e cantando! Não quero ver ninguém parado, vamos lá!” e todos soltaram um grito de guerra.

Estava eu pronto pra mandar tudo aquilo à merda quando a bateria começou a tocar, tum-tum-tum-tum-tac-ti-tá-tá-tum-tum-tum-tum, e ao som daquela batida ancestral algo aconteceu dentro de mim. Foi então que me toquei de que iria desfilar numa escola de samba do PRIMEIRO GRUPO DO RIO DE JANEIRO! Caraca, mermão! A emoção bateu tão forte, tão poderosa, que é impossível descrevê-la. Quando todo mundo começou a cantar e dançar eu esqueci da vida, (quer dizer, da morte) e me esbaldei.

A minha escola de coração (agora era!) entrou linda na avenida. Eu fui sambando junto, mandando beijinhos pra todos, dando piruetinha e tudo. Foi demais! Vocês não tem idéia da emoção que rola quando a gente está lá, genti! Só quem foi pode dizer. Uma câmera da Globo me flagrou e eu dei uma sambadinha pra ela. O Cléber Machado quando me viu falou: “Olha aí a câmera da Globo pegando todos os detalhes pra você espectador que tá em casa. Olha que bonitinha essa Morte! O Ceifador de almas! Até parece a Morte de verdade, né, Mariana Godoy?”. “Sei lá, Cléber, eu nunca morri” – respondeu Mariana.

Desfilei durante vinte minutos improvisando o samba na base do “Lara-Lá-Olê-Lê-esquindô” já que não sabia picas da letra. Mas quando prestei atenção no que todo mundo estava cantando, comecei a me incomodar. Havia algo errado ali. A letra do samba era algo assim:

Mestre das curvas e retas / Criador da nossa capital

Filho do Rio de Janeiro/ Pai de uma obra imortal

O nome veio do alemão / E a inspiração do francês

Le Corbusier/ concreto armado agora tinha sua vez

Recriou a linha do horizonte / Desenhou as ondas do mar

Seu nome ecoa na história/ Pra sempre o nosso Oscar!

Oscar? Que porra de Oscar era aquele? Descobri, pasmem!, que a escola estava homenageando o OSCAR NIEMEYER! Puta que me pariu! O meu inimigo imortal. Fiquei ainda mais puto quando me disseram que a nossa ala se chamava “Pé-na-bunda da Morte”. Havia até uma coreografia que começava no meio da avenida com uns carequinhas representando o Niemeyer que vinham e davam um chute no traseiro da gente. Humilhação total.

Comecei a achar tudo uma bosta e broxei na hora. Só faltava o samba-enredo ter uma rima com “Sapucaí” pra merdear de vez. Porque é aquilo, toda porcaria de samba-enredo tem que ter a palavra Sapucaí. Até que ouvi o trecho:

Arquiteto do Palácio da Alvorada/ e do Itamaraty

Receba com glórias a homenagem/ Na Sapucaí!

Pronto, não faltava mais nada. O pior, o pior de tudo mesmo, era o refrão idiota que eu estava cantando e nem tinha percebido:

Niemeyer/ Brasileiro de sorte

Sua vida é o sopro mais forte,

Mais forte, mais forte, que a Morte

Sem exagero, aquilo me deu engulhos. Tentei voltar, sair da minha ala, mas o negrão de dois metros me empurrou de volta “Vai lá e samba, porra! Bota ânimo nisso!”. Eu tentava sambar, mas não dava. Comecei a destoar do resto. “Estou cansado” – tentei alegar – “essa fantasia pesa” – afinal todo folião diz que a fantasia pesa. “Foda-se!”, disse o negrão, “até o velho está aguentando” e eu perguntei “que velho?”. Ele então me apontou, no alto de um carro alegórico representando a Igreja da Pampulha, ele mesmo, o próprio Oscar Niemeyer cercado por três mulatas e duas panicats de destaque.

O velhote estava sambando emocionado e o coração estava à mil. Cenário perfeito para um empacotamento épico. Nem acreditei na minha sorte. Com certeza nunca mais teria uma chance daquelas. Animei-me outra vez. Comecei a sambar alegrinho e dei um jeito de acelerar minhas passadas em direção ao carro do velho arquiteto. Daquele dia ele não passaria.

Atravessei a ala “Plano Piloto”, onde todo mundo estava vestido de aviãozinho no formato de Brasília. Depois passei pela ala “Karl Marx”, onde todo mundo estava vestido de barba branca representando o lado comunista do homenageado. Agachado, passei ao lado do carro alegórico “Edifício Copan” que foi representado deitado com uma fina camada de água e com surfistas deslizando pelas ondas do famoso edifício. Os surfistas estavam de terno, gravata e maletas na mão, representando o “trabalhador paulista”. Depois me agachei e atravessei a ala “Câmara dos Deputados”, onde todo mundo se vestia como o prédio da câmara, só que em cima da fantasia havia pacotes de dinheiro. Uma crítica social do carnavalesco à “corrupção do país” e etc., ou seja, as mesmas merdas de sempre.

Finalmente consegui chegar ao carro onde estava o Niemeyer. Eu nem podia acreditar: o Matusalém estava a poucos metros de mim. Eram metros pra CIMA, mas eram poucos. Comecei a escalar a parte de trás do carro e fui subindo, de forma lenta, saboreando cada minuto daquele momento histórico.

Porém, quando eu estava quase chegando ao topo acabei escorregando nas curvas daquela falsa igreja da Pampulha (Pra quê tanta curva numa igreja, Meu Deus? PRA QUÊ?!) e caí deslizando e puxando metade do carro comigo. Dois destaques, dois caras peladões e purpurinados despencaram sobre mim. Vou falar, não foi nada agradável. Um deles caiu sentado na minha cara. Estou cuspindo purpurina até agora. Um horror.

Foi o maior rebuliço. Os câmeras da Globo evitaram mostrar detalhes. O pessoal da escola se agitou e começou a arrumar a situação rapidamente, mas não adiantou: atrasei o desfile em oito minutos e a escola perdeu pontos. O campeonato tinha ido pro saco.

Fui arrastado dali e me levaram para frente do negrão de dois metros outra vez. “Você de novo, seu merda?! Fudeu nosso desfile! Se a gente perder esse campeonato por tua causa tu vai morrer, mermão!”. Quando ele disse isso retruquei na lata: “O cacete! Quem você acha que é pra falar assim comigo?!”. Ele se aproximou e me deu uma encarada fulminante: “Adaílton Souza Neves, diretor de bateria. Por quê?”. Adaílton?

Bem… acho que não preciso dizer que nem tudo foi perdido aquela noite. O cara sofreu um colapso fulminante e morreu na hora. Todo mundo culpou o stress do desfile e estranhou o meu desaparecimento logo depois. Minha missão estava cumprida e parti pra outra. Tinha que buscar dois futuros eletrocutados em um trio de Salvador ainda aquela noite. Rotina.

Quanto ao Niemeyer, o de sempre: escapou ileso e nem viu nada do que aconteceu. Soube pela revista Caras que depois ele foi para o camarote da Brahma e ficou até as cinco da manhã conversando com a Gisele Bundchen. Como bem dizia o samba, o cara tem sorte.