UMA NOITE NA SAPUCAÍ

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O nome do sujeito era Adaílton e em sua ficha estava escrito apenas “Sambista – Cirrose”. Típico. O cara bebia tanto, mas tanto, que no lugar do seu fígado devia ter um buraco com um bilhetinho escrito “Desisto. Fui.”. Seu empresuntamento estava marcado para aquele fatídico sábado de carnaval e compareci no horário em seu barraco. Mas ele não. Quando bati em sua porta uma vizinha enxerida esticou o pescoço por cima do muro e me disse que o tal Adaílton não estava lá. Àquela hora ele já deveria estar no Sambódromo e sua escola de samba pronta pra entrar na avenida. Ela ainda me acelerou: “Vai logo você também. Devem estar te esperando!”. Não entendi bulhufas. Deixei pra lá e fui pra Sapucaí atrás do pré-defunto.

Cheguei na concentração das escolas e aquilo estava muito cheio. Lembrava-me o oitavo círculo do inferno, só que mais quente. Perguntei pelo Adaílton, mas ninguém me dava atenção. Estava todo mundo tenso, arrumando coisas na última hora, o pessoal da bateria tomando bronca, correria de aderecista pra lá, de maquiador pra cá, e eu fui tratado na patada por todo mundo. Já estava puto e pensando em reclamar com o pessoal da LIESA quando um negrão de dois metros de altura me segurou pelo braço e falou “Aí, mané, tá fazendo o quê aqui? Vai pro seu lugar! A gente já vai entrar!”. “Que meu lugar?” – estranhei – mas ele não respondeu e já foi me empurrando por um aglomerado de gente fantasiada, mulheres com plumas, carros alegóricos, até me largar em uma ala cheia de gente fantasiadas de MORTE.

Surpresa total. Havia uma “Ala da Morte” para ilustrar enredo da escola aquele ano. Era composta por umas duzentas pessoas de roupa preta, máscara de caveira, e foice na mão. Foi então que entendi porque a vizinha do Adaílton me apressou. O problema é que a fantasia de todos ali dava de dez no que eu estava vestindo. Fiquei meio envergonhado. Perto deles a minha roupa parecia algo comprado na Renner em cinco prestações. As túnicas de todos ali era cheia brilhos, lantejoulas, paetês, e a foice era toda de prata. Viadagem pura, claro. Mas carnaval sem viadagem não é carnaval.

Um carnavalesco afetadíssimo surgiu no meio de todo mundo e botou ordem no pedaço. A biba gritava com uma euforia que beirava a psicopatia: “Vamos lá, gente! Hoje é dia de luz! Muita luz! Muito sucesso! Vamos que esse ano é nosso! Ninguém tira esse campeonato da gente! Quero ver todo mundo dando sangue! Quero ver todo mundo sambando e cantando! Não quero ver ninguém parado, vamos lá!” e todos soltaram um grito de guerra.

Estava eu pronto pra mandar tudo aquilo à merda quando a bateria começou a tocar, tum-tum-tum-tum-tac-ti-tá-tá-tum-tum-tum-tum, e ao som daquela batida ancestral algo aconteceu dentro de mim. Foi então que me toquei de que iria desfilar numa escola de samba do PRIMEIRO GRUPO DO RIO DE JANEIRO! Caraca, mermão! A emoção bateu tão forte, tão poderosa, que é impossível descrevê-la. Quando todo mundo começou a cantar e dançar eu esqueci da vida, (quer dizer, da morte) e me esbaldei.

A minha escola de coração (agora era!) entrou linda na avenida. Eu fui sambando junto, mandando beijinhos pra todos, dando piruetinha e tudo. Foi demais! Vocês não tem idéia da emoção que rola quando a gente está lá, genti! Só quem foi pode dizer. Uma câmera da Globo me flagrou e eu dei uma sambadinha pra ela. O Cléber Machado quando me viu falou: “Olha aí a câmera da Globo pegando todos os detalhes pra você espectador que tá em casa. Olha que bonitinha essa Morte! O Ceifador de almas! Até parece a Morte de verdade, né, Mariana Godoy?”. “Sei lá, Cléber, eu nunca morri” – respondeu Mariana.

Desfilei durante vinte minutos improvisando o samba na base do “Lara-Lá-Olê-Lê-esquindô” já que não sabia picas da letra. Mas quando prestei atenção no que todo mundo estava cantando, comecei a me incomodar. Havia algo errado ali. A letra do samba era algo assim:

Mestre das curvas e retas / Criador da nossa capital

Filho do Rio de Janeiro/ Pai de uma obra imortal

O nome veio do alemão / E a inspiração do francês

Le Corbusier/ concreto armado agora tinha sua vez

Recriou a linha do horizonte / Desenhou as ondas do mar

Seu nome ecoa na história/ Pra sempre o nosso Oscar!

Oscar? Que porra de Oscar era aquele? Descobri, pasmem!, que a escola estava homenageando o OSCAR NIEMEYER! Puta que me pariu! O meu inimigo imortal. Fiquei ainda mais puto quando me disseram que a nossa ala se chamava “Pé-na-bunda da Morte”. Havia até uma coreografia que começava no meio da avenida com uns carequinhas representando o Niemeyer que vinham e davam um chute no traseiro da gente. Humilhação total.

Comecei a achar tudo uma bosta e broxei na hora. Só faltava o samba-enredo ter uma rima com “Sapucaí” pra merdear de vez. Porque é aquilo, toda porcaria de samba-enredo tem que ter a palavra Sapucaí. Até que ouvi o trecho:

Arquiteto do Palácio da Alvorada/ e do Itamaraty

Receba com glórias a homenagem/ Na Sapucaí!

Pronto, não faltava mais nada. O pior, o pior de tudo mesmo, era o refrão idiota que eu estava cantando e nem tinha percebido:

Niemeyer/ Brasileiro de sorte

Sua vida é o sopro mais forte,

Mais forte, mais forte, que a Morte

Sem exagero, aquilo me deu engulhos. Tentei voltar, sair da minha ala, mas o negrão de dois metros me empurrou de volta “Vai lá e samba, porra! Bota ânimo nisso!”. Eu tentava sambar, mas não dava. Comecei a destoar do resto. “Estou cansado” – tentei alegar – “essa fantasia pesa” – afinal todo folião diz que a fantasia pesa. “Foda-se!”, disse o negrão, “até o velho está aguentando” e eu perguntei “que velho?”. Ele então me apontou, no alto de um carro alegórico representando a Igreja da Pampulha, ele mesmo, o próprio Oscar Niemeyer cercado por três mulatas e duas panicats de destaque.

O velhote estava sambando emocionado e o coração estava à mil. Cenário perfeito para um empacotamento épico. Nem acreditei na minha sorte. Com certeza nunca mais teria uma chance daquelas. Animei-me outra vez. Comecei a sambar alegrinho e dei um jeito de acelerar minhas passadas em direção ao carro do velho arquiteto. Daquele dia ele não passaria.

Atravessei a ala “Plano Piloto”, onde todo mundo estava vestido de aviãozinho no formato de Brasília. Depois passei pela ala “Karl Marx”, onde todo mundo estava vestido de barba branca representando o lado comunista do homenageado. Agachado, passei ao lado do carro alegórico “Edifício Copan” que foi representado deitado com uma fina camada de água e com surfistas deslizando pelas ondas do famoso edifício. Os surfistas estavam de terno, gravata e maletas na mão, representando o “trabalhador paulista”. Depois me agachei e atravessei a ala “Câmara dos Deputados”, onde todo mundo se vestia como o prédio da câmara, só que em cima da fantasia havia pacotes de dinheiro. Uma crítica social do carnavalesco à “corrupção do país” e etc., ou seja, as mesmas merdas de sempre.

Finalmente consegui chegar ao carro onde estava o Niemeyer. Eu nem podia acreditar: o Matusalém estava a poucos metros de mim. Eram metros pra CIMA, mas eram poucos. Comecei a escalar a parte de trás do carro e fui subindo, de forma lenta, saboreando cada minuto daquele momento histórico.

Porém, quando eu estava quase chegando ao topo acabei escorregando nas curvas daquela falsa igreja da Pampulha (Pra quê tanta curva numa igreja, Meu Deus? PRA QUÊ?!) e caí deslizando e puxando metade do carro comigo. Dois destaques, dois caras peladões e purpurinados despencaram sobre mim. Vou falar, não foi nada agradável. Um deles caiu sentado na minha cara. Estou cuspindo purpurina até agora. Um horror.

Foi o maior rebuliço. Os câmeras da Globo evitaram mostrar detalhes. O pessoal da escola se agitou e começou a arrumar a situação rapidamente, mas não adiantou: atrasei o desfile em oito minutos e a escola perdeu pontos. O campeonato tinha ido pro saco.

Fui arrastado dali e me levaram para frente do negrão de dois metros outra vez. “Você de novo, seu merda?! Fudeu nosso desfile! Se a gente perder esse campeonato por tua causa tu vai morrer, mermão!”. Quando ele disse isso retruquei na lata: “O cacete! Quem você acha que é pra falar assim comigo?!”. Ele se aproximou e me deu uma encarada fulminante: “Adaílton Souza Neves, diretor de bateria. Por quê?”. Adaílton?

Bem… acho que não preciso dizer que nem tudo foi perdido aquela noite. O cara sofreu um colapso fulminante e morreu na hora. Todo mundo culpou o stress do desfile e estranhou o meu desaparecimento logo depois. Minha missão estava cumprida e parti pra outra. Tinha que buscar dois futuros eletrocutados em um trio de Salvador ainda aquela noite. Rotina.

Quanto ao Niemeyer, o de sempre: escapou ileso e nem viu nada do que aconteceu. Soube pela revista Caras que depois ele foi para o camarote da Brahma e ficou até as cinco da manhã conversando com a Gisele Bundchen. Como bem dizia o samba, o cara tem sorte.

O DIA EM QUE PARTICIPEI DE UM BBB

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Quando entrei naquele banheiro de hotel eu não podia imaginar o que me esperava. O sujeito havia escorregado no box a ponto de seus pés voarem por cima de sua cabeça, bateu a nuca no chão, e morreu na hora. Estava eu indicando o caminho da luz para o pobre-coitado quando dois seguranças, com crachás da Globo, entraram no quarto e me interpelaram cheios de marra. Queriam saber quem eu era, o que fazia ali,o de praxe. Respondi aos dois de forma apocalíptica com a minha voz metálica ribombante:

Eu sou a MORTE! O Onipresente! O Implacável! O Todo-poderoso do destino! Ninguém manda em mim!

– Pffff! – rebateu o segurança – Você diz isso porque não conhece o Boninho!

Fiquei sem entender. Quem era Boninho? Os dois não me responderam e me ergueram pelos braços. Levaram-me até a presença daquele ser supremo, pelo menos parecia ser, que estava no saguão do hotel. Boninho já estava de ovo virado e me botou o dedo na cara.

– O que você fez com o Kleberson?

– Quem é Kleberson?

– A nossa melhor aposta no BBB desse ano. Alto, bonito, burro como uma porta, mas já tinha garantido duas capas da G Magazine quando saísse. E agora ele está morto por sua causa! Você estragou tudo!

Justifiquei dizendo que eu não sabia que o cara era um BBB confinado num hotel. Aquele era o meu trabalho e eu não podia fazer mais nada. Meu serviço é só buscar a encomenda. Que ele reclamasse com quem fazia os pedidos, ou seja, Deus.

– Eu não me rebaixo a ninguém! – disse Boninho – Eu quero um novo participante para o meu show agora!

Juro que pensei em dar uma ceifada ali e acabar com aquele moleque mimado. Mas uma assistente de produção, uma gordinha de head-set e prancheta na mão, sussurou algo ao ouvido de Boninho que reagiu como quem acabasse de descobrir que é herdeiro do Eike Batista. Ele abriu os braços e se aproximou de mim sorrindo. Fez uma proposta: que eu substituísse o Kleberson. Afinal eu também era alto, carismático, magro, bem magro, o que me garantia ficar bem diante das câmeras e que eu poderia ser o “diferencial” do BBB naquele ano, já que o programa é sempre a mesma merda e o hermafrodita argentino da temporada anterior havia sido um desastre. Eles nunca tiveram um ser do além na casa e eu poderia trazer frescor ao programa.

Obviamente eu disse não. Expliquei-lhe que sou um ser transcedental, uma entidade divina, que dá sentido à toda e qualquer forma de vida. Eu não iria largar tudo pra participar de um miserável joguinho humano de vaidade e cobiça onde tudo cheira a marmelada. Boninho então me prometeu que eu ganharia um Fiat Palio Weekend na primeira semana.

Topei na hora.

Antes da produção tirar o meu Iphone, e me afastar do mundo exterior, consegui visualizar o meu perfil no UOL junto com o dos outros onze BBBs. Lá dizia que eu era “irascível, cruel, implacável, mas sexy, bem humorado e com sexualidade indefinida, talvez gay”. Já havia 174 comments embaixo da minha foto que ia do “eu pegava” a “tem cara de viado mesmo”. Não gostei nada daquilo. Mas me disseram que fazia parte do jogo.

No dia seguinte saímos eu e os outros onze BBBs na carreata pela cidade até o Projac. Já ali rolou um stress. Boninho ficou puto quando aproveitei para liquidar dois motoboys no caminho. Pedi desculpas, disse que eu estava só adiantando um serviço pra quando eu saísse, mas ele não quis saber e me deu esporro assim mesmo, na frente dos outros. Fiquei com lágrimas nos olhos.

Chegando na casa, mais problemas. Ninguém queria ficar no mesmo quarto que eu. Discussão pesada. O Boninho teve que mandar todo mundo calar a boca pelo sistema de áudio. Senti um clima pesadão pro meu lado. Ninguém me queria por perto ou puxava assunto comigo. Percebi que não iria longe naquele jogo se não tomasse alguma atitude. Foi o que fiz na primeira noite quando o Bial apresentou a gente para todos os espectadores brasileiros. Soltei o verbo ao vivo.

– Ô, Bial, eu não ia falar nada, mas sou uma pessoa muito franca e costumo falar o que penso. Ó, eu sinto uma certa implicância comigo aqui dentro e gostaria de deixar claro para o público que eu não sou esse ser terrível que estão tentando pintar.

– Cara, você é a MORTE! – disse Nathalie, uma loirinha com cara de vagabunda que dividia o quarto comigo – Eu não sabia que esse programa aceitava esse tipo de… gente, ou sei lá eu o que é você. Tem que ver isso aí, Bial!

Respondi no ato:

– Fica na sua, Nathy! Se não você sai dessa casa pelo lado de cima, se é que você me entende.

Iniciamos uma pequena discussão, mas Bial botou panos quentes e nos acalmou. Ele aproveitou pra citar Fernando Pessoa. Ele falou que “navegar é preciso, viver não é preciso” e que eu apenas seguia isso ao pé da letra. Achei profundo.

Nos dias que se seguiram o clima não melhorou. Quando começaram as provas de resistência, ganhei todas. Como não tenho fome, nem sede, e não preciso ir ao banheiro nunca, pra mim é moleza ficar trancado dentro de carro, preso em gaiola, de cabeça pra baixo, a merda que for. Em uma semana eu já tinha ganhado um Corsa, duas máquinas da Brastemp, e dois anos de compras nos Supermercados Guanabara.

Isto me fez sacar que eu era o candidato mais forte, literalmente. O único que poderia tirar o prêmio de minhas mãos era Renato, um veterinário gaúcho simpático, altamente carismático, que trabalhava em uma ONG para salvamento de animais. Mas, felizmente, ele teve um AVC no terceiro dia e morreu de modo fulminante. Todos os outros BBBs me acusaram de manipular o jogo e eu disse que não mandava no destino, Renato morreria mesmo de derrame, e que o fato de eu ter adiantado sua morte em apenas 18 anos era só um detalhe.

O ódio dos outros concorrentes só aumentava. Quando pela primeira vez tirei a minha túnica para nadar na piscina, Gabrielly, uma baiana que já tinha transado com três caras ali dentro, inclusive um câmera, disse que eu estava nadando nu só para me mostrar. E eu disse que tava nem aí, que o que era bonito era pra ser mostrado. Leocádia, uma ex-modelo gaúcha e anoréxica disse que eu era só osso. Eu respondi: olha quem fala! Discutimos feio na piscina. Quem acompanhou no pay-per-view viu quando rolamos de porrada na grama.

Óbvio que tudo isso teria um preço. No primeiro paredão o pessoal foi implacável comigo: todos votaram para me tirar dali. Ganhei dez votos, o único que não votou em mim fui eu. O troço foi tão chato que o outro concorrente do paredão foi escolhido no zerinho ou um. Acabou sobrando comigo o Julius, um lutador de jiu-jitsu cujo cérebro havia morrido em 2004, mas ele não sabia disso ainda.

Ao mencionar o cérebro de Julius, Bial aproveitou pra citar Manoel de Barros e disse que “Morrer é uma coisa indestrutível”. Achei profundo.

Seguiram-se dois dias de tensão e fofoquinhas dentro da casa. Numa festa lá eu enchi a cara e disse que se eu saísse dali na votação levaria todos comigo. Gerei um momento de pânico. Os BBBs tentaram fugir pulando os muros e pedindo socorro para a produção, mas eu disse que estava me referindo à casa, e não a vida deles, porra. Boninho, pelo áudio, me proibiu de fazer qualquer referência à morte ou usar verbos como “empacotar”, “falecer”, “carregar” por ali. Depois me mandou tomar no cu. Sinceramente? Afinei. O cara bota moral.

No dia do resultado do paredão, o mico: Bial estava no meio das duas arquibancadas, uma lotada com a torcida da família e de amigos de Julius e do outro lado apenas uma arquibancada vazia. Eu não tinha ninguém me esperando lá fora, o que era uma coisa meio óbvia, mas ainda assim fiquei meio chateado. O bom é que foi por pouco tempo. Porque quando saiu o resultado da votação do público, veio a grande surpresa da noite. Apesar de eu ser o mais odiado, votaram pela saída do Julius. Eu vibrei como um louco, pulei no sofá, comemorei feliz. Urrú!

O que incomodou todo mundo foi a porcentagem: Julius teve 100% dos votos pra sair da casa. Num primeiro momento pensei “puta cara sem carisma, hein?”. Mas não era nada disso. Boninho então percebeu a cagada de me botar ali: podia rolar vinte paredões que o público JAMAIS votaria para que eu saísse da casa. Afinal, melhor a Morte presa em algum lugar do que trabalhando por aí. Resumindo: eu já era o vencedor daquela edição por antecipação.

O resultado foi a previsibilidade do jogo e consequente queda da audiência. Os anunciantes sumiram. Boninho me chamou num canto e disse que eu tinha que tentar reverter aquilo. Sei lá, dizer para os telespectadores que todo mundo que visse o BBB ganharia alguns anos de vida, ou algo assim. Eu disse que não podia fazer isso e que queria continuar na casa. Boninho então, como sempre puto, disse que iria fazer de tudo pra me tirar dali. Dei de ombros, estava nem aí. Esse negócio de fama mexe com o ego da gente.

Uma semana depois, eu estava brincando embaixo do edredon com Luara, uma psicóloga que também era garota de programa, quando tocou o Big Fone. Disseram que era pra mim e quando atendi tomei um choque: do outro lado da linha estava nada mais nada menos do que DEUS.

O Criador me enquadrou. Disse que não havia me posto no mundo pra ficar de boresta num programa de TV e que eu tinha muito trabalho atrasado fora da casa. Eu deveria sair o quanto antes. Fiquei furioso, reclamei, mas obedeci. Sumi da casa. Fui substituído por Lucas, um gorila depilado, mas a produção o apresentou como ex-lutador de UFC e dono de uma barraca de coco na Barra.

Para justificar minha saída, Bial citou no ar o poeta italiano G.G. Belli “Agora a morte está escondida nos relógios”. Achei profundo.

O público que acompanhava odiou, claro, mas aquela edicão do BBB (nem lembro qual) voltou a pasmaceira normal de todas as outras. Eu voltei ao meu trabalho rotineiro, mas ainda intrigado: por que Deus tinha que se meter naquilo? Duas semanas depois fiquei sabendo a resposta: o Boninho enviou para o Todo-Poderoso uma caixa de Chateau Lafite, o melhor vinho da adega do Boni.

Sério, eu sabia que BBB era meio marmelada. Mas nunca imaginei que pudesse chegar a esse nível.

O MILAGRE DA CASA 58

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Nevava muito naquela pequena vila inglesa na manhã do Natal de 1911. Eu, a Morte, o ceifador cruel e implacável, o senhor absoluto da vida e das trevas, parei em frente ao pequeno sobrado de tijolos à vista com chaminé e um telhado cinzento coberto de gelo e fuligem. Na porta de madeira, pintado à mão, um rústico número 58. Tirei minha lista do bolso e entre flocos de neve conferi a encomenda daquela manhã: “James Winston Smith – sete anos – tuberculose- pra ONTEM”. Sei que não é de bom tom levar crianças na data mais emotiva do ano, Herodes que o diga, mas como não sou eu quem dá as cartas do destino, parti com a minha foice disposto a levar a alma daquele pobre garoto.

O quarto do pequeno Jimmy ficava no segundo andar, mas resolvi entrar pela janela da sala da casa. Acidentalmente, porém, minha túnica enroscou no trinco e me desequilibrei. Caí de forma patética derrubando uma singela árvore de Natal armada no canto da sala causando algum barulho. Depois de praguejar xingando a mãe de alguém no inferno, botei a árvore de volta no lugar. Ainda estava arrumando a cena quando o pequeno Jimmy surgiu na escada e me flagrou ajeitando os presentes.

Nossos olhares se encontraram. Um segundo de estranhamento se deu até que do peito frágil do ainda mais frágil menino brotou uma doce voz que eu jamais esqueceria:

– Papai Noel?

Tomado pela presença daquele serzinho magérrimo, raquítico, ridículo, respirando com dificuldade, no último estágio da tísica, pensei em liquidar logo o serviço. Na boa: seria um alívio para ambos. Mas aquele rosto angelical, os olhos enormes como o do Gato do Shrek, reacendeu algo dentro de mim. Fez-me redescobrir um velho coração de manteiga que não me permitiu concluir minha missão. Sim, eu sabia que eu era a Morte, o ceifador cruel e implacável, mas, puta que o pariu, se vocês vissem a cara daquele menino fariam o mesmo. Sem saber o que responder embarquei na triste brincadeira.

– Sim, Jimmy, s-sou eu. O Papai Noel.

Ele me olhou entre a dúvida e o espanto. Tive que ser mais convincente.

– Ho! Ho! Ho!

Após a risada cretina o garoto veio e me abraçou com seus bracinhos magros sob o pijama de ursinhos azuis.

– Papai Noel! Papai Noel! Que bom que você veio! – ele se afastou estranhando a minha roupa – Mas, Papai Noel… você não era gordo?

Tive que ser rápido. Era impossível resistir aos olhinhos brilhantes do pequeno Jimmy.

– É que eu tô de dieta. Cortei carboidratos.

– E a sua roupa não era vermelha?

– Sujei descendo a chaminé.

– E essa foice? É pra quê?

– Por favor, moleque, não pergunta muito não.

Jimmy começou a tossir. Quem o ouvisse diria que daquele dia ele não passava. Se eu fosse menos bunda mole ele não passaria MESMO. Assim que parou, o desmilinguido petiz puxou-me pela manga.

– Qual dessas caixas é o meu presente, Papai Noel?

– Como é que eu vou saber, guri?

– Você não leu minha carta?

– Não. Só o li o seu boletim.

– Da escola?

– Não. O do hospital.

O garoto, rápido, puxou a lista de nomes do meu bolso.

– Uau, você já levou presente pra todas essas pessoas?!

– M-mais ou menos.

– O que você deu pra elas?

– A paz eterna.

– E por que meu nome está aqui?

– Me devolve isso, Jimmy!

Tomei a lista de sua mão e ele teve outro acesso de tosse. A força de vida daquele garoto emocionaria até um deputado corrupto.

– Puxa, Papai Noel, eu estou tão feliz. O Doutor Oliver disse aos meus pais que eu não passaria do Natal.

– Eu sei. Ele é um ótimo médico.

– Ver você aqui hoje é um milagre de natal! Eu sinto que vou viver mais, não vou?

Jimmy me perguntou isso no exato momento em que eu consultava a minha ampulheta de pulso. O último grão de areia da vida do garoto já havia caído. Eu tinha que fazer o meu trabalho. Porém um sino soou ao longe e uma sensação de paz e de amor envolveu meu espírito. Percebi que a vida pode não ter muito sentido, mas o Natal tem, e não seria eu a estragar tão idílico momento. Resolvi dar mais uma chance de vida àquela pobre criança.

– Sim, Jimmy. Você vai viver mais.

– Eu sabia, Papai Noel, eu sabia! – ele me abraçou ainda mais forte – eu sabia que ia viver mais! Muito mais!

– Esse “muito” já é por tua conta, ok?

– Posso abrir meu presente, agora?

Jimmy abriu a maior caixa de todas e de dentro puxou um reluzente barquinho de metal. O pai de Jimmy, um trabalhador das docas de Southampton, caprichara no presente, pois imaginava que seria o último. Qualquer um imaginaria.

– Uau! Obrigado, Papai Noel! Esse é o melhor presente que você já me deu.

– O SEGUNDO melhor. Vai por mim.

– Brinca comigo?

– Jimmy, não posso, eu tenho muitas casas pra visitar ainda hoje.

– Então diz pro vovô John vir brincar aqui comigo!

– Vovô John?

– É. Você não vai passar na casa dele?

– Só na semana que vem.

– Ué, mas semana que vem não é natal.

Eu poderia ter falado do derrame fulminante já pré-marcado do pobre avô do garoto, mas não quis estragar o clima. Já havia tristeza demais por ali. Nem precisei me explicar muito: assim que ouvi os sons dos passos dos pais de Jimmy descendo a escada, despedi-me do garoto falando “fui” e saí voado pela janela. Eu não tinha mais o que fazer ali.

Estava já a dois quarteirões da casa de Jimmy quando começou a me bater o arrependimento por não ter feito o que deveria. Envergonhado pelo meu ato, resmunguei ao vento e soquei minha testa: “Que merda eu tenho na cabeça? Por que fui fazer isso? Você é a morte, animal, a MORTE! Você não pode vacilar desse jeito!”. Foi então me toquei de que havia esquecido a minha foice. Eu precisava voltar. Aquilo, para mim, era quase um sinal divino, um “se manca” de Deus, de que eu deveria retornar e cumprir minha missão. Parti decidido que assim o faria.

Entretanto, a vida sempre surpreende. E é por isso que eu a detesto. Quando me aproximei da janela casa de Jimmy meu ímpeto mudou. Eu vi o menino contando aos seus pais e seus irmãos que Papai Noel havia estado ali. Todos estavam tão surpresos e emocionados com a sua alegria, e ainda mais surpresos por ele ainda caminhar e andar, que não duvidaram. Ao final todos se abraçaram em um momento único de carinho e começaram a cantar juntos “O Tanenbaum” em uma afinação digna de filmes da Disney. A família mais perfeita e unida que eu já havia visto. Aquilo levou lágrimas aos meus olhos e me deu a certeza de que eu havia tomado a decisão correta.

Na hora de abrir os presentes mais alegria: todos ganharam o que desejavam. Havia sido um bom ano, o pai de Jimmy trabalhara muito na construção de um grande navio e deixou para o final o grande presente, a grande surpresa para todos: ele e a família haviam sido premiados com uma passagem para a viagem inaugural do RMS Titanic no ano seguinte. Quando ouvi “Titanic” consultei minha lista de imediato: magicamente o nome de Jimmy e toda a família pularam para abril de 1912.

Suspirei fundo, peguei minha foice de volta, e fui embora enquanto todos dentro da casa ainda vibravam de felicidade. Eu havia salvado o natal, mas… e daí? Não é só isso o que importa nas histórias de natal? O que mais aprendi naquele dia, de verdade, é que até a morte pode ser legal, pode até perdoar e adiar algumas coisas. Já o destino… que filho-da-puta, hein?!

CINCO COISAS QUE NÃO SE DEVE FAZER QUANDO CHEGAR A HORA

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Como diz o velho ditado “para morrer basta estar vivo e não ser o Niemeyer”. Yes, gentchi! Empacotar é um fato inexorável. Mas, ainda assim, poucos, pouquíssimos, quase nenhum de vocês, para não dizer NINGUÉM, se prepara de forma decente para a hora H. E não é porque não se tem mais nada a perder que se deve perder a elegância, néam?

Por isto escolhi as cinco principais gafes que vocês cometem no momento crucial, as cinco mancadas que mais me incomodam, para que vocês evitem cometê-las em nosso primeiro e último encontro. Evitar estes cinco micos-monsters não fará de você uma pessoa melhor, claro, mas já é um boooom começo. Ou um bom final. Tanto faz.

GAFE 1: NÃO ACEITAR QUE EMPACOTOU

Entendam de uma vez por todas: não adianta espernear, chorar, berrar, ou dizer que fez acordo com Deus e o mundo. Se EU apareci é game over, ok? 

— Morte, eu não vou!

— Saco, começou…

— Tô falando sério, você não vai me levar. Eu não morri.

— Cara, eu tenho horário.

— Não interessa. Eu quero voltar pro meu corpo agora!

— Então corre porque acabaram de botar naquele forno crematório ali…

GAFE 2: TENTAR ME EXPLICAR O QUE ACONTECEU

Eu sei, eu vi a cagada que você fez ou que fizeram com você, não precisa me contar tudo de novo. Isto é soooo boring!

— Eu posso explicar, Morte: eu vinha a uns oitenta por hora.

— Cento e vinte.

— Aí o carro da frente deu sinal para direita.

— Não, não deu.

— Então vi que dava pra fazer a ultrapassagem.

— Não, não dava.

— E fui. Só não vi a moto que vinha no sentido contrário.

— Era uma carreta com um farol queimado.

GAFE 3: FAZER VISITINHAS ANTES DE PARTIR.

Isso até suporto se for rápido. Mas quando neguinho vem com papo de “queria ver minha sogra pela última vez” , COME ON! Dá pra sacar que é bullshit!

— Morte, antes de ir eu quero ver uma pessoa.

— Merda. Quem?

— Meu chefe. Quero dizer umas verdades na cara dele.

— Você sabe que ele não vai te ouvir, não sabe?

— Sei. Mas eu preciso dizer. Não posso ir sem antes mandá-lo pra puta que o pariu.

— Mas por que você não fez isso em vida?

— Porque não me deixaram. Ele é um doente terminal de câncer e está nas últimas.

— Ah tá, se é assim, então vamos. Quem sabe economizo uma viagem.

GAFE 4: QUERER LEVAR ALGUMA COISA PARA O ALÉM

Definitivamente: vocês não precisam e nem podem levar NADA. Imaginem que o além é como ir para o Rio Water Planet só que sem sunga. 

— Dona Morte, eu posso levar meu Iphone?

— Não.

— Meu computador?

— Não.

— Posso levar minha coleção de DVDs?

— Não. Desista. No além a tecnologia humana não serve pra nada. 

— Então por que você pegou meu Nintendo DS e escondeu na sua túnica?

— ISSO É PROBLEMA MEU!

GAFE 5: FILOSOFAR SOBRE O SENTIDO DA VIDA

Isso realmente DÁ NO SACO. O cara descobre a porra do sentido da vida dele só no último minuto e vem buzinando na minha orelha? Sentido da vida my ass!

— Da vida nada se leva.

— Arrã.

— Eu deveria ter escolhido melhor meus amigos.

— Arrã.

— O amor é tudo na vida. Agora eu percebi.

— Arrã.

— Eu não deveria ter cometido tantos crimes, nem roubado, nem prejudicado tanto o próximo.

— Escute, senador, o papo tá bom, mas a gente já tá parado na porta do inferno faz quinze minutos. Por favor, ENTRE LOGO!

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A Morte acha que todo artigo sobre etiqueta deve ter afetação, termos em inglês, e frescura. E em breve lançará seu livro em parceria com Danuza Leão, “Na cova com Danuza”, pela Editora Arx.

A MORTE BATE À SUA PORTARIA

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Final de tarde num condomínio da Barra da Tijuca. A dona da casa atendeu um insistente interfone. Do outro lado linha, a voz anasalada e de sotaque nordestino do porteiro deu-lhe o recado mais estranho de sua vida.

— Dona Lucília?

— Diga, seu Romildo.

— Olha só, tem um hómi aqui na portaria que quer falar com a senhora. Ele tá dizendo que é a MORTE.

— A Morte? Como assim “A Morte”?!

— Ele não falou mais nadica. Só disse que é a Morte.

— Mas como é que alguém pode ser A Morte, seu Romildo? Como é que ele é?.

— Alto, magriinho, roupa preta, capuchinho, e um facão grande na mão.

— Uma foice?

— Isso, esse troço aí, num lembrava o nome.

— E ele disse que quer falar comigo?

— Ele num falou com quem veio falá não. Disse só que veio buscar uma encomenda no endereço da senhora e que é coisa rápida.

— R-rápida?! Tá. Só um minuto.

O marido lia a colorida página de esportes do Globo quando a mulher entrou apavorada na sala.

— Carlos Alberto, problema: a Morte está na portaria do nosso condomínio dizendo que veio buscar uma encomenda aqui em casa.

— Jura? — disse o homem baixando o jornal — Será que ele veio buscar a sua mãe?

— Carlos Alberto, por que quando se fala em morte aqui em casa você sempre pensa na minha mãe?!

— Lógica, ué? Ela já está com um pé na cova faz tempo.

— Ela nem mora aqui.

— Mas a gente pode ligar pra ela vir. Deixa que eu ligo.

— Largue este telefone AGORA, Carlos Alberto! Que é que é isso? Não é assim que funciona. Eu sempre li que a Morte tem hora certa.

— E, mas sua mãe já passou da hora.

— Quer parar de falar na minha mãe?! A Morte está na NOSSA portaria.

— E daí?

— E daí que ela pode ter vindo busca um de nós dois. Por que não? Por que não pode ser a SUA hora?

— A minha? Impossível. Estou vendendo saúde.

— Mas tem colesterol alto.

— 180 não é alto! E eu tomo estatina! Você é quem pode empacotar antes de mim.

— Eeeeeeu? De onde você tirou essa idéia?

— Genética. Seus parentes morrem feito hamsters.

— Isso não é verdade.

— Lucília, só do lado da família do seu pai tem uns cinco derrames que eu me lembre. Na sua família quem passa dos cinquenta é quase um Highlander!

— Discordo, “querido”. Quem irá no seu enterro sou eu e não o contrário.

— Ah é, “querida”? Já que você está tão segura, por que VOCÊ não vai à portaria e pergunta pessoalmente quem a Morte veio buscar?

Um pio de pássaro se ouviu ao longe durante o curto silêncio da mulher. Que acabou se irritando de vez.

— Carlos Alberto, eu já atendi o interfone. Será que eu tenho que fazer tudo nessa casa? Custa levantar a bunda da cadeira de vez em quando?

—Se custar a minha vida, custa.

No meio da discussão um adolescente de bermudão xadrez e ouvindo Ipod surge deslizando num skate.

— Pai, mãe, vou andar de skate com o Batata!

— JÁ PRO QUARTO AGORA! – Explodiram os dois.

O moleque assustado enfiou o skate debaixo do braço e sumiu corredor adentro. Quinze minutos de bate-boca, e alguns vasos quebrados depois, o casal decidiu conversar com a empregada na cozinha.

— Entendeu, Elvânia? É só ir lá na portaria e perguntar que encomenda esse sujeito veio buscar.

— Mas não vai atrasar o meu serviço?

— Deixa atrasar! — disse o marido já aflito e empurrando a empregada para a porta — Vai logo que ele deve estar impaciente. Esse cara veio de longe.

— De onde, Seu Carlos?

— Alguns dizem que ele é do limbo, outros dizem que é do céu, mas também pode ser do infer…

Lucília pigarreou furiosa fulminando o marido com o olhar. Carlos Alberto suspirou.

— Ele é de Minas, Elvânia. Itajubá.

— Ai, jura? Adoro o povo de lá!

A empregada saiu toda animada. Minutos que pareceram dias se sucederam até o silêncio ser cortado pelo interfone da cozinha. O porteiro novamente.

— Dona Lucília, só pra dizer, o hómi já foi embora, visse? Parece que ele cansou de esperar e sumiu.

O casal respirou aliviado. O marido até fez um sinal da cruz.

— Ai, que ótima notícia, seu Romildo. Obrigada. Agora, por favor, peça para a Elvânia voltar.

— Pois é, Dona Lucília, isso que eu ia falar. O homem foi embora, mas a empregada da senhora teve um piripaque e caiu durinha aqui na frente da calçada. Não tá nem se mexendo. Já chamei ambulância e tudo.

A mulher desligou o interfone ainda impressionada com a experiência. O casal se abraçou num gesto automático. Ambos emocionados por terem escapado de uma visita do Fim de Todos. Mas, ainda que quisessem, não conseguiriam ignorar a tristeza onipresente. Eles sabiam que a vida nunca mais seria a mesma. Sabiam que naquele instante a Morte ria às gargalhadas em algum lugar do além. Afinal, os dois tinha a consciência de que arrumar um novo marido ou uma nova esposa não é algo tão complicado assim. Porém, tentar arrumar uma empregada nova no Rio de Janeiro é um castigo divino. A danação eterna estava apenas começando…

DURA LEX SED LEX SEM JONTEX

30

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Era pra ser uma encomenda como outra qualquer. O sujeito chegou em casa, apanhou a esposa com outro na cama, rolou uma discussão, um revólver surgiu, e seis tiros depois tudo acabou: dois corpos assassinados e o de um suicida no mesmo quarto. Ou seja, serviço de rotina. Mas não quando envolve três talentosos advogados de um dos mais caros escritórios do país. Roubada da grossa. Assim que apontei a direção do poço sem fundo, a mulher tomou a frente.

— Protesto! — disse ela ajeitando os óculos — Eu não vejo por que devo acompanhar o ilustre representante do passamento alheio até as profundezas. Sou uma vítima clara das circunstâncias. Não vejo como pode ser-me imputada alguma culpa nesta situação.

— Ah, não? — Suspirei fundo e puxei meu surrado exemplar dos Dez Mandamentos autografado pelo próprio Moisés na noite de lançamento das tábuas. Fui direto para o sétimo: “Não cometerás adultério”. Guardei o livro no bolso e empurrei os três para fora — Vamos logo que à noite o trânsito pro inferno sempre piora.

— Sem pressa, por favor, meu nobre e implacável ceifador disse ela de forma tão educada que até me senti prestigiado — Até onde nós sabemos, os Dez Mandamentos são leis divinamente expressas por Deus para quem está sob Sua jurisdição. Se você verificar meu histórico verá que sou atéia, nunca recebi nenhuma espécie de batismo religioso, e sou casada apenas no civil com o meu marido aqui de alma presente. Data venia, não vejo onde, como, e nem por que, esta lei possa ser aplicada a este caso.

Havia furos na argumentação, eu sei. Mas ela falou com tanta certeza e segurança que fiquei na dúvida. Ela tinha O DOM. Decidi que iria levá-la para o limbo até o caso ir para uma revisão posterior. Mas cinco minutos de conversa depois ela me convenceu a levá-la para o paraíso. Segundo ela, conseguiríamos uma liminar em menos de uma hora para isso. Advogado bom é foda!

— Ok, vamos lá, tá decidido. — Eu disse — A mulher aqui vai para o céu. Já vocês dois vão suar os fundilhos nas thermas do capeta. Andando!

— Protesto! — Disse o Ricardão do pedaço — Por que a nobre doutora vai para o paraíso e EU devo ser levado para o inferno?

Puxei o decálogo do bolso outra vez e li, já meio inseguro, o nono mandamento: “Não cobiçarás a mulher do próximo”. Fim de papo.

— Sim. Mas se a minha ex-amante está perdoada por não ser casada religiosamente com o seu marido — disse ele — então, logo, oficialmente, aos olhos de Deus ela não era a sua esposa. Correto?

— Correto… — concordei, já meio confuso.

— E se ela não era a mulher dele, logo não cobicei a mulher do próximo. Na verdade não cobicei nada de ninguém. Portanto, data venia, a pena máxima do inferno para todo o sempre não deve ser aplicada ao meu caso.

Até tentei falar alguma coisa, mas parei no meio, pensativo. Ele tinha razão. Resolvi que não iria levá-lo para o inferno também. E por uma questão de jurisprudência iria encaminhá-lo para o paraíso junto com a mulher. Pareceu-me o mais justo a fazer na hora. Portanto só me restava levar o marido traído para as profundas do sofrimento eterno. Claro que ele chiou. E muito.

— Por que só eu?! Os dois me traíram. Protesto veementemente!

Eu já estava muito cansado daquilo. Somente a boa educação deles fazia com que eu não perdesse a paciência de vez. Puxei o sujeito de lado e fiz um pedido sensato.

— Cara, por favor, não complica. Você assassinou e se suicidou. Se isto não é motivo para eu te levar direto pro colo do tinhoso, o que mais pode ser?

— Mas é preciso levar em conta os meus antecedentes. Eu sou o único aqui que frequentava a igreja todos os domingos!

— É verdade. — disse o Ricardão com um sorrisinho sacana no rosto. A mulher sorriu de lado, cúmplice.

— Estou sinceramente arrependido do que acabei de fazer. — continuou o corno — E quem se arrepende ganha, ipso facto, o reino dos céus. Está na lei divina. Todo mundo sabe como funciona!

Tentei argumentar que ele deveria ter se arrependido em vida, e coisa e tal, mas não consegui. O cara, além de conhecer vários versículos do Novo Testamento que embasavam sua defesa, era mestre na oratória. Os outros dois o auxiliaram e disseram que todos ali poderiam fazer um acordo geral em que ninguém sairia perdendo, todos iriam para o paraíso. Inclusive me garantiram que eu sairia como grande herói da história, algo que contaria pontos no futuro para a minha carreira no além, afinal, Deus adorava estas coisas de misericórdia, perdão, e tudo o mais. Fiquei MUITO tentado a ceder, mas percebi que aquilo precisaria da intervenção de uma instância superior. Mandei os três calarem a boca, peguei o celular, e fiz uma ligação direta para Deus.

Deus me atendeu impaciente como sempre. Expliquei toda a situação, todos os argumentos, que Ele ouviu concordando sem falar nada. Somente quando mencionei que os três eram advogados é que o Todo-Poderoso estourou.

— Advogados?! — berrou Deus — ADVOGADOS?! E você está ensebando pra mandar os três pro inferno POR QUÊ?!

No mesmo instante as três almas sumiram da minha frente e foram para o inferno sem escalas num piscar de olhos. Ainda deu tempo de ouvir o Criador soltando um “será que eu tenho que fazer tudo por aqui?!” e desligando. Fiquei meio ofendido, claro, mas relevei.

E uma coisa ninguém pode negar: Deus é um Cara prático pra cacete. Não está onde está à toa.