CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 8

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“TEM CERTEZA QUE A CHAVE ESTÁ DESLIGADA?”

Quando Benjamin Franklin soltou uma pipa durante uma tempestade com uma chave amarrada à linha, eu disse pra mim mesmo “FU-DEU!˜. Larguei tudo e fui embora. Pensei em abandonar meu emprego de entidade sobrenatural para abrir um boteco, uma butique, ou um carrinho de pipoca que fosse. Trabalhar com seres energúmenos como vocês, nunca mais! Pois se quem vocês consideram um gênio era capaz de fazer uma cagada dessas, tremi só de imaginar o que aconteceria quando a eletricidade fosse acessível a todos.

Porém, Deus me procurou dias depois e renegociamos meu contrato. Ele me garantiu que a raça humana aprenderia a utilizar a energia elétrica com eficiência e que atos tresloucados como o de Franklin nunca mais aconteceriam. Acreditei nele mais uma vez. E, claro, me fodi mais uma vez. Infelizmente a raça humana nunca entenderá o perigo que é lidar com eletróns em movimento, essas pequenas partículas sub-atômicas que não vêem diferença entre um corpo humano e um cabo Reiplas. A maior prova são as derradeiras clássicas palavras “Tem certeza que a chave está desligada?” um outro clássico moderno e fatal das frases pré-pacote.

Muito se fala dos mortos nas guerras, mas eu tenho certeza que já levei mais gente trocando resistência de chuveiros do que desarmando bombas. Por isto é que desligar a chave geral de um sistema elétrico para fazer pequenos reparos deveria ser obrigatório, quase um artigo da constituição, e a pena para quem não cumprisse a lei deveria ser a cadeira elétrica. Já que quer morrer eletrocutado, pelo menos vá sentado. É mais digno.

O que é preciso que se entenda é que pouquíssimas forças naturais são tão boas em mandar vocês para o raio que o parta como a eletricidade. Rápida como um raio, fulminante como um raio, quente como um raio, eficaz como um raio, talvez seja uma das mais límpidas e ecológicas formas de morrer. A evolução tecnológica humana garantiu-lhe, inclusive, um aspecto prático: se na pré-história era preciso esperar uma tempestade elétrica para sofrer um torrefação express, hoje basta segurar um fio desencapado para partir desta para melhor num flash carbonizante. Chega a ser lindo.

Por tudo isso é que me incomodo quando vocês fecham os olhos para a possibilidade de se tornarem imensos pedaços toucinhos em menos de trinta segundos. Afinal, o que custa sair de onde está e verificar VOCÊ MESMO se a chave geral está desligada? Tem certeza que você confia na opinião do seu filho meio lerdo para ver isso? Ou na da sua mulher? A mesma que achava que quadro de disjuntores era uma peça artística na parede da casa? Tem certeza que confia no seu cunhado de bermuda e com uma latinha de cerveja na mão para verificar algo tão sério? Custa largar alicate com o cabo de borracha rasgado e ir até a caixa de luz ver se o reloginho tá girando?

Cavilosa como poucas, “Tem certeza que a chave está desligada?” traz em seu bojo uma crueldade implícita, pois quem a responde, ou seja, aquele que DESLIGOU a chave, não tem nada a perder. Quem está prestes a virar churrasco grego é quem faz a pergunta. Pensem bem nisso antes de acreditar num titubeante “sim, eu desliguei”. Porque depois que acontecer o choque, e você dançar rumba segurando dois fios, enquanto o seu cunhado de bermuda e latinha de cerveja na mão pergunta de onde está vindo o cheiro de queimado, não adianta reclamar. Já FOI!

Portanto, se quiserem continuar vivos, vale aqui mais uma vez uma das primeiras leis da sobrevivência humana: confiar na inteligência alheia não é uma atitude inteligente. Enquanto a humanidade se tiver em alta conta e se esquecer de que todos vocês são pródigos em equívocos, mancadas, erros grosseiros, burradas, pisadas na bola, desleixos, e cagadas sem fim, continuarei a tomar chá com torrados.

Acha que exagero? Então combinemos assim: continue fazendo serviços caseiros sem desligar a chave geral e confiando no seu cunhado com a latinha de cerveja na mão. Depois me escreva dizendo o que aconteceu. Melhor, nem precisa escrever. Você vai me contar PESSOALMENTE.

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CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 7

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“ATENÇÃO, PASSAGEIROS, VAMOS ATERRISSAR”

Podem perguntar a qualquer piloto que eu ainda não levei: os dois momentos mais arriscados de um vôo são a decolagem e a aterrissagem. Geralmente acompanho TODOS os vôos de muito perto e posso confirmar: o negócio é brabo mesmo. Se não fosse o meu trabalho JAMAIS entraria em um avião. Sempre que acompanho uma decolagem e uma aterrisagem acho que alguém como eu virá ME buscar.

Pousos mal-sucedidos são um espetáculo da engenharia humana. Nada impressiona mais que a descida de um avião que começa numa pista de pouso e termina dentro de um supermercado ou um posto de gasolina. Por isto é que quando ouço as simpáticas últimas palavras “Atenção, passageiros, vamos aterrissar” até mesmo eu, a Morte, sente um friozinho na espinha.

Obviamente que há variações como “Atenção, senhores passageiros, apertem os cintos, e atentem para os procedimentos de aterrissagem” . Mas se houvesse uma forma mais completa, estaria seria “Atenção, senhores passageiros, vou tentar depositar 200 toneladas de metal, combustível, e carne humana, à velocidade de 500km/h sobre uma pista de asfalto e seja o que Deus quiser”, mas acho que isso não tranquilizaria muito vocês.

Ninguém poderia imaginar, mas quando Santos Dumont fez o 14 Bis decolar e pousar naquele fatídico ano de 1906, fiquei muito puto. Aquele inventorzinho nanico e afetado conseguiu estragar um dos maiores prazeres da minha vida que era ver vocês tentarem voar (e fracassarem, claro). Vocês tem os seus “Friends”, “Seinfeld”, “Grande Família”, eu não. Para mim nada superou em humor até hoje a história da aviação. Todos os anos eu levava pelo menos uns 300 de vocês em engenhocas cada vez mais ridículas em cenas de empacotamento hilárias! Que saudade…

Porém, em 1908, fui fazer um serviço de rotina buscando um tenente do exército americano que havia quebrado pelo menos 80% dos ossos do corpo. O acidente se deu numa máquina esquisita que eu nunca tinha visto antes. “Aquilo é um avião motorizado de asas fixas”, disse-me ele, “o primeiro modelo da história”. O sorriso então voltou novamente à minha face: o futuro estava nos acidentes aéreos, óbvio! Como eu não havia pensado nisso antes? Havia esperança. Com esta experiência aprendi que quando a vida fecha uma porta, uma janela se abre em algum lugar. E se for a janela de um avião que se abra a dez mil metros de altura, melhor ainda.

Talvez a a forma mais tranquila de se dizer “Atenção, senhores passageiros, vamos aterrissar” fosse a mais curta e mais simples: “Atenção, senhores passageiros, REZEM!”. Mas como mais da metade de vocês já fazem isso automaticamente, talvez, de fato, não seja preciso dizer.

Só sei que todas as vezes que ouço estas últimas palavras, eu saio da cabine de comando e vou para área dos tripulantes. Ali eu estico as pernas, faço um alongamento, um aquecimento, tomo um café. Porque, nunca se sabe, um serviço pode estourar a qualquer momento. Literalmente.

Ah, sim, aproveitando: fiquem tranquilos quando vocês não encontrarem a caixa-preta de um avião. Quando isso acontece é porque eu levei a fita pra estudar em casa, para melhorar minha performance nas próximas. Afinal, depois de tanto esforço pra se matarem, vocês merecem o melhor de mim.

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CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 6

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“APROVEITA QUE O SINAL ESTÁ AMARELO!”

Os acidentes de trânsito revelaram-se eventos tão cheios de possibilidades e variações que chega a ser difícil escolher o melhor tipo e o mais funcional. Afinal quase todos me garantem um serviço rápido e sem complicações. Mas se há um tipo que me diverte, confesso, são aquelas cacetadas nas quais vocês dizem, pouco antes de virarem parte das ferragens, a fatal frase “Aproveita que o sinal está amarelo!”, mais um clássico moderno das últimas palavras.

Este tipo de acidente nasceu do maquiavelismo inerente ao ser humano. E por “maquiavelismo inerente” entendam “filha-da-putice da grossa”. Porque o que poucos de vocês sabem é que antigamente os semáforos tinham apenas duas fases, o verde e o vermelho. No verde o motorista avançava, no vermelho ele freava. Nada mais simples do que isso. Funcionava muito bem e o número de acidentes era baixíssimo. Eu tinha tão pouco serviço em acidentes de trânsito nessa época que investia o meu tempo em outras áreas, como Guerras Mundiais, por exemplo.

Ocorreu que a indústria automobilística entrou em crise em determinado período dos anos 20. Os motivos principais eram a durabilidade dos carros e a satisfação dos consumidores em ter apenas um veículo para a vida toda. Desesperada, e precisando aumentar suas vendas de qualquer maneira, a indústria teve a brilhante idéia de fazer os consumidores estragarem seus veículos de forma mais rápida chocando-os uns contra os outros. As grandes montadoras fizeram então um acordo com as prefeituras das cidades, que logo mobilizaram seus engenheiros de tráfego, e criaram o nefasto sinal AMARELO. O que era certeza, então, tornou-se dúvida .

Sim, é para isso que o sinal amarelo serve: deixá-los em dúvida. A frase “Aproveita que o sinal está amarelo!” é fruto da titubeada de alguém, normalmente um braço-duro dos infernos que jamais deveria conduzir um carro (89% de vocês, em média). Ela tanto pode ser dita por quem está ao lado do motorista, apressando alguém meio lerdo, como apenas atravessar rapidamente os pensamentos de quem está ao volante. Em ambos os casos, ela é a última coisa a passar pela cabeça da pessoa. Ou a penúltima, caso o carro não tenha air-bag.

Mas não vejam isso como uma crítica à indústria automotiva, porque, pessoalmente, sou muito grato a ela. Devo à invenção do automóvel os melhores momentos da minha vida profissional no século XX. Assim que Ford inaugurou a primeira linha de montagem em série da história, eu inaugurei a primeira linha de desmontagem em série de vocês. A indústria automobilística, por mais que se considere uma transformadora de matéria-prima em produtos, no fundo não passa de uma mera fornecedora de matéria-prima para mim. Não tenho do que reclamar. Já vocês, me desculpem a sinceridade, não passa de uns manés nas mãos dessa gente.

Portanto quando alguém disser a você as palavras “Aproveita que o sinal está amarelo!” freie caso queira continuar vivendo. Nunca ache que vai dar tempo, porque não dá. Quando acontece de funcionar é porque vocês me pegaram muito ocupado com alguma outra questão em Gaza, ou no Afeganistão, ou em outro lugar assim, e por isso deixei passar batido. Mas se eu estiver perto, perdoem o trocadilho, não deixo passar a batida.

Ao avançarem um semáforo com a luz central acesa saibam que a única coisa amarela certa nesta história será o sorriso de vocês quando me encontrarem. Já eu me aproximarei com o meu mais alvo arreganhar de dentes e direi, como sempre, “BEM FEITO!”.

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CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 5

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“PODE VIR QUE ELE É MANSO”

Típicas palavras de donos de cães, domadores de circo, criadores de orcas, ou de qualquer idiota que ache que tem o domínio sobre um animal irracional com o triplo do seu tamanho, o “Pode vir que ele é manso” é mais um clássico exemplar das últimas palavras. Palavras que só não são mais fatais devido ao instinto de sobrevivência inato de alguns de vocês que, sabiamente, mantém uma distância média de 14 metros de quem profere esse tipo de besteira. Afinal, quem confia na sabedoria animal está apenas provando que tem menos sabedoria do que um animal. E aquele que nunca tremeu diante de um cão mostrando os dentes tem menos sabedoria ainda. Ou tinha, a depender do caso.

O que muita gente não entende é que o reino animal não é muito confiável. Qualquer um com mais de dois neurônios é capaz de perceber que cães são parentes de lobos, gatos são parentes tigres, e apresentadores de TV são parentes das antas. Simples assim. Todo animal domesticado já foi selvagem um dia. Qualquer zoólogo pode confirmar que a diferença genética entre um lobo e um cachorro é mínima, o que significa que todo cão carrega um lobo dentro de si. Menos os pequineses, que se parecem com alguma coisa que os lobos mastigaram e carregam dentro de si.

Analisando friamente, veremos que o ser humano não tem tanta culpa quando é confundido com um brinquedo de morder por um Rottweiller. Há mais do que uma mera morte estúpida neste ato. Ele é tão somente a comprovação de uma grande falha natural: a ausência de memória biológica, uma lacuna da evolução humana tão grave quanto à calvície, o apêndice, e a ausência de caudas. Se a humanidade se lembrasse do perrengue pelo qual seus ancestrais passaram com outros predadores jamais chegariam perto de um chihuahua que fosse.

Vocês podem ter se esquecido do seu passado, mas eu não. Presenciei a evolução desde o dia em que vocês desceram das árvores e posso dizer sem ter que fazer média: na pré-história a raça humana não passava de uns MACAQUINHOS RIDÍCULOS. Os homens eram os manés da selva, o tira-gosto das matas, o esparro da estepe. A floresta era uma espécie de churrascaria Porcão dos grandes predadores onde a carne principal era a humana. Macios, fáceis de capturar e de digerir, o homem era o café da manhã, o almoço, e o jantar, da maioria dos predadores, e o que sobrava as hienas ainda levavam numa quentinha para casa. Para terem uma idéia, muitos dos animais que hoje são tidos como prato principal, como cervos, gazelas, e zebras, na época eram uma espécie de desprezado cupim enquanto a humanidade era a preferida picanha nobre.

Por isto é inexplicável o fato da humanidade, após levar uma surra de milhões de anos e abandonar a vida miserável das selvas, ainda manter amizade com certos animais e, pior, trazê-los para dentro de casa chamando-os de “melhores amigos”. Mais do que falta de orgulho, é burrice, e o “Pode vir que ele é manso” é um convite para dividir esta burrice com alguém. Obrigar alguém a esquecer que um pastor alemão tem a alma de uma besta-fera sanguinária apenas porque o bicho está de banho tomado, e com uma tirinha de couro no pescoço escrito “Totó”, é uma das mais pérfidas sacanagens a que alguém pode submeter seu semelhante.

Portanto, quando lhe disserem estas palavras, saiba que o medo em seu peito, ou o peso extra em suas calças, é apenas o reflexo de milhões de anos de história de uma relação ancestral e inteligente com os animais. Em outras palavras: corra e poupe o meu trabalho.

Acho que foi Rudyard Kipling quem disse que você até pode tirar o tigre da selva, mas jamais tirará a selva do tigre. Eu já acho que você até pode segurar no pescoço do seu pitbull, mas jamais conseguirá segurar um pitbull no seu pescoço.

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CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 4

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“RELAXE, É SÓ UMA CIRURGIA SIMPLES”

Poucas áreas do conhecimento humano são tão pródigas em facilitar o meu trabalho quanto a área médica, a minha preferida depois da indústria bélica. Apesar dos seus profissionais dizerem que tentam o exato contrário, nada supera a medicina no quesito fatalidade. Posso estar errado, mas acho que perto de uns 70% de vocês vão para a terra dos pés-juntos ao lado de um homem de branco dizendo que já fez de tudo ou que esqueceu alguma coisa de metal ao lado do seu pâncreas. E poucos momentos e frases são tão emblemáticas de uma área quanto a clássica “Relaxe, é só uma cirurgia simples”.

O problema, é óbvio, não está nas palavras em si, que são claramente uma tentativa de relaxar alguém que está prestes a entrar na faca. Às vezes funciona, às vezes não, e às vezes alguns tentam sair correndo antes de serem sedados à força. Ninguém em sã consciência relaxa ao saber que vai ser aberto como um peru de natal a ser recheado de farofa. Mas como o ser humano é dado a ilusões, e ao auto-engano, para não dizer à burrice mesmo, então dá-lhe bisturi.

Como uma cirurgia é sempre um procedimento de alto risco, e implora para dar errado desde o momento que alguém tem a idéia de realizá-la, a sorte que muitos tem de conseguir sobreviver a uma incursão dessas é a evidência definitiva de que já perdi a forma. Em outras palavras: não é a medicina que está evoluindo, eu é que ando meio preguiçoso mesmo.

O que muitos de vocês não percebem é que esta frase esconde uma pegadinha, ou uma puta sacanagem, como queiram, que ludibria os mais incautos. Há uma palavra que não surge ali, mas que está presente na cabeça do médico, do cirurgião, ou mesmo do leigo que a omitem apenas para tranquilizar o futuro presunto. Quando alguém diz “Relaxe, é só uma cirurgia simples” subentenda-se que logo após há um insinuante “…Espero”. Há mais sabedoria neste curto “espero” não dito do que em todos os compêndios de medicina já escritos.

Não dá nem para dizer que haja dolo nesta pequena omissão. O que o ser humano tenta escamotear com estas últimas palavras é uma falsa sensação de poder sobre uma mentira secular: a lenda de que o corpo humano é uma máquina perfeita e que basta uma pequena regulagem na parte interna para ficar como nova. Não acreditem nisso.

O corpo humano, na real, é um erro de engenharia tão grosseiro que se houvesse uma CPI da criação certamente descobririam algum desvio de verba no projeto. Nada é mais tosco, mal-ajambrado, e ridiculamente frágil do que esta porcaria que vocês usam. O corpo humano só perde o prêmio de pior design da natureza por uma questão de regras. Se os ornitorrincos fossem considerados hors concours o troféu já era de vocês há muito tempo.

O que há de mais irônico em “Relaxe, é só uma cirurgia simples” é que quem diz isto no fundo sempre sabe que não é. O número de coisas que podem dar errado em uma cirurgia sempre supera em cinco ou seis vezes o número do que pode dar certo, e se você estiver usando convênio, o número dobra.

Mas caso não haja escolha e você tenha que entrar para a turma do zíper, peçam para que lhe digam apenas um breve e curto “relaxe”. Porque a única coisa “simples” em uma cirurgia é o meu serviço depois.

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CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 3

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“VOCÊ NÃO É MACHO PRA PUXAR ESSE GATILHO!”

A estupidez humana não tem limites. Ou melhor, até tem, mas o limite da burrice é uma espécie de recorde olímpico que a humanidade tenta bater a todo custo como se fosse um Usain Bolt. O “Clássico das Últimas Palavras” desta semana seria medalha de ouro certa se houvesse uma competição de frases absurdamente idiotas. “Você não é macho pra puxar esse gatilho” é um exemplar de tudo o que não se deve dizer caso ainda haja um desejo mínimo de se continuar vivo. O que nem sempre parece ser o caso.

Muito comum em reações a assaltos à mão armada, em flagras de adultério, discussões no trânsito, e brigas de casal, o “Você não é macho para puxar esse gatilho” caracteriza-se pelo tom desafiador de alguém, certamente com pouca inteligência e amor à vida, a uma segunda pessoa que, por acaso, aponta-lhe uma arma. O raciocínio de quem profere estas palavras mais do que derradeiras é o seguinte: “Este cara me apontando uma arma é um bunda-mole. Ele apenas acha que não é porque tem uma arma na mão. Logo, ele não terá coragem, nem capacidade, de usar a própria arma que empunha”. Bem, sinto informar a muitos de vocês que este é um raciocínio enganoso e normalmente falho. Para não dizer imbecil.

A explicação é simples. Apesar de bem elaborado, o gatilho é um mecanismo simples que parte do princípio da alavanca para acionar o disparo de um projétil. O que em linguagem mais clara quer dizer: ATÉ UM MACACO É CAPAZ DE ACIONAR ESTA PORRA. Um mínimo espasmo, ou mero tremor de dedo, é capaz de enfiar uma azeitona na empada que estiver na frente.

Portanto, fica a pergunta: pra quê reagir? Pra quê provocar?! Se for para impressionar alguém, ou para dar uma de valentão diante da namorada, tenha a certeza que a tática funciona, mas por TRÊS SEGUNDOS, quando não menos. Se formos mais fundo na questão, e esmiuçarmos este ato insano como se deve, veremos que há um forte componente sócio-psicológico, cultural, e até sexual, que merece uma atenção à parte.

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Não é preciso ir muito longe para perceber que há uma arrogância implícita na provocação, um tom de superioridade moral, e até física, que não condiz de modo algum com a situação de quem está prestes a virar presunto. O que o desafiador coloca em dúvida, de modo sub-reptício, é a potência e a virilidade de quem está armado, como se a arma fosse um pênis substituto que pudesse falhar na última hora. Deste modo fica claro que a frase denomina o (em breve) assassino de BROXA, o que só amplifica o poder de ação destas palavras e exemplifica ainda melhor o tamanho da asneira que é proferi-las.

Entretanto, caso em quem diga estas palavras haja um desejo latente de empacotar, não conheço suicídio melhor e mais funcional. “Você não é macho para puxar esse gatilho” é uma das frases mais eficazes que conheço para isso, garantindo uma morte rápida na medida exata. Um clássico das últimas palavras que não deixa dúvidas sobre os seus objetivos e que facilita muito a decisão de alguém que queira lhe mandar para os quintos dos infernos.

Sob este aspecto, pode-se até dizer que estas palavras escondem em si uma riqueza insuspeitada, uma dubiedade intrínseca, que a redime até certo ponto. Elas tanto podem ser as últimas palavras de uma alma superior, de alguém que já se desapegou da vida e está com o espírito pronto para subir aos céus, quanto as de uma alma inferior, que apenas não sabe onde enfiar a língua.

Se tiver dúvidas de que tipo você é, fique quieto. Pois pior do que ficar calado e todo mundo achar que você é burro, é abrir a boca e deixar todo mundo com a certeza. O “Você não é macho para puxar esse gatilho” é a prova dos nove da inteligência humana. E se você não souber o que é uma prova dos nove, já é um sério candidato a usá-la um dia.

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CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 2

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“DEIXA QUE EU DIRIJO”

Talvez as mais comuns das palavras derradeiras, o “deixa que eu dirijo” pode ser enunciado por qualquer um, de qualquer classe social, desde que curta uma cana braba, e é serviço quase certo para mim. Baste que se misture um carro, a ingestão desemedida de álcool, uma estúpida falta de bom senso e pronto: eis mais uma frase para o rol dos clássicos das últimas palavras.

Em alguns casos, é verdade, nem é preciso o álcool. Se quem a disser for um braço-duro, uma espécie de Rubinho Barrichelo do dia-a-dia, pode ser que em poucos quilômetros, ou mesmo metros depois, ele se encontre comigo. Este encontro pode ser num poste, num muro, num outro carro que venha no sentido contrário, num ponto de ônibus lotado de trabalhadores, ou no próprio ônibus, num cavalo, num carrinho de cachorro-quente, no fundo de um rio, em qualquer coisa ou lugar. “Deixa que eu dirijo” são palavras quase mágicas, pois podem levar vocês a lugares e situações nunca antes imaginados cuja única coisa em comum é terem, ou serem, um obstáculo fixo e resistente pela frente.

Uma rápida análise de texto revela algumas particularidades. Primeiro o tempo verbal da frase, o mais correto seria usar o DEIXE. Ou seja, a frase já derrapa no português, o que é um exercício claro de metalinguagem: a derrapada na língua refletir-se-á numa derrapada verdadeira, quando não num capotamento completo, e dará cabo do enunciador. Segundo que isto não faz a menor diferença, já que quem a diz vai empacotar mesmo, errar no português é o menor dos seus problemas.

Apesar da funcionalidade e do sucesso, o “deixa que eu dirjijo” é uma frase que caminha para o esquecimento. As famigeradas operações de Lei Seca tem acabado com grande parte do seu encanto, já que ninguém mais quer pegar no volante e arriscar ser parado pelas BOLS, onde geralmente surge outra frase clássica, mas nada fatal, o “eu não vou assoprar essa merda”, mas que não vem ao caso agora.

O “Deixa que eu dirijo” é simples, popular, e está ao alcance de qualquer um de vocês. Usem esta frase com moderação. Já que na manguaça, não adianta pedir, vocês não moderam MESMO!

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