A CENA EXCLUÍDA DE BAMBI

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Sinto em dizer isto aos meus leitores mais jovens, mas é fato: o cinema de hoje não está com nada. A molecada emburrecida que cresceu assistindo a bombas como Premonição e Jogos Mortais não tem noção do que é uma boa morte cinematográfica. Vísceras, sangue, cabeças e órgãos decepados podem até ter alguma graça na vida real, mas no cinema, me desculpem, é tosqueira demais para o meu refinado gosto artístico.

Na sala escura eu prefiro a sutileza, o clima, a arte, de sentir a morte de um personagem de forma lenta e contemplativa. Pra ver gente morrendo de forma besta basta-me o dia-a-dia. Bala perdida serve pra isso.

Por isto que de todos os empacotamentos da sétima arte o meu preferido é a morte da mãe de Bambi. Considerada uma das cenas mais clássicas da história da animação a sequência toda é um primor: o silêncio frio após o tiro, a câmera focando somente o branco embaçado da névoa, a voz de Bambi ecoando à procura de sua amada protetora, até que o vulto do pai se aproxima e diz “sua mãe não virá mais”. Eis mais uma prova incontestável da sensibilidade de Walt Disney.

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O que poucos sabem, entretanto, é que Disney não chegou a esse resultado por acaso. Recentemente, revirando os arquivos os estúdios, pesquisadores encontraram os storyboards e o roteiro de uma cena alternativa cortada na edição final. Alguns especialistas discordam do material, mas eu atesto e dou fé: Disney havia imaginado a sequência toda diferente.

Em primeira mão segue a sequência que aconteceria imediatamente após o tiro do caçador.

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Pessoalmente, prefiro a versão que foi para as telas, mas se o criador do filme cogitou esta sequência é porque ela também tem seu valor. Quando Disney se descongelar (pelo menos não me lembro de tê-lo levado) poderemos tirar essa dúvida.

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PONTOS MORRIDOS

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O campeonato brasileiro, tal como está hoje, é um cadáver insepulto. E se tem uma coisa que eu odeio é serviço largado na mesa.

Nunca o futebol apresentado em um campeonato foi tão ruim, com exceção, talvez, dos três que o São Paulo ganhou seguidamente, e o último que o Flamengo ganhou por W.O. coletivo dos outros 19 times.

Por isto gostaria de aproveitar este blog para fazer uma proposta muito séria à CBF. Como sei que os dirigentes do futebol brasileiro tem pavor de mata-matas (até então o meu preferido, ÓBVIO) eu sugiro uma terceira alternativa ao campeonato de pontos corridos. Proponho um campeonato de pontos MORRIDOS, ou, mais popularmente, o Morre-Morre.

Seria uma disputa onde, em vez de perder ou ganhar pontos, os times perderiam JOGADORES conforme a sua escolha. O sistema funcionaria simplesmente matando alguns titulares e reservas dos times derrotados e mantendo todos os dos vencedores. Em vez de pontos, jogadores. Funcionaria assim:

– Em caso de uma vitória simples, o time todo sobrevive.

– Em caso de derrota, três jogadores morrem.

– Em caso de empate, cada time perde um jogador.

Simples e prático, não? O número de rodadas seria indefinido e o time que mais vencesse (ou sobrevivesse, o que dá no mesmo) seria o campeão.

Este sistema é similar ao que Roma utilizou na época dos gladiadores e sempre deu certo, posso garantir. Pelo menos nunca vi nenhum cidadão romano queimando bandeira ou pedindo cabeça de imperador depois de uma apresentação no Coliseu.

As vantagens de uma mudança como essa seriam inúmeras, mas posso destacar algumas:

A VOLTA DO FUTEBOL ARTE – Os jogadores pernas-de-pau seriam eliminados logo de cara nas primeiras rodadas e a qualidade média de todos os plantéis subiria em semanas, porque só os craques sobreviveriam.

CAMPEONATOS MAIS CURTOS – O sistema encurtaria o número de rodadas, já que se durar mais de dez periga todos os grande clubes virarem times de futebol de salão.

REBAIXAMENTO DESCOMPLICADO – Não haveria clubes rebaixados. Afinal os quatro times que mais sofressem derrotas já estariam embaixo da terra antes do final do campeonato. A zona da degola finalmente faria jus ao nome e todos os clubes pensariam duas vezes antes de voltar à primeira divisão pra outro fiasco.

TORCIDAS SATISFEITAS – Sabe quando um torcedor tem vontade de matar um jogador que faz corpo mole em campo? Este seria um sonho realizado. É o sistema perfeito para os clubes agradarem seus torcedores de verdade. Afinal, melhor do que colocar alguns pernas-de-pau na geladeira é colocá-los num necrotério de vez.

EMOÇÃO GARANTIDA – O melhor de tudo, claro. Certamente os jogadores entrariam com mais garra no campo e se matariam mais pelos seus times. E não só no sentido figurado, ele se matariam DE FATO.

Eu me proponho a transferir o passe de cada jogador para o além. Poderia fechar um contrato com cada clube, pois tenho uma empresa esportiva registrada, a SOUL TRAFFIC, forneço nota e tudo. Se a Federação topasse, na parte que me toca, eu estaria disposto a fazer esse esforço. Tudo pelo bem do esporte brasileiro.

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A Morte acha o ônibus dos jogadores tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube.

ESPECIAL – MORTE NA TV

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Não adianta arrancarem as calças pelas cabeças, ameeegues: eu estou em TODAS e a TV embarcou na onda como sempre. Porém, muitas vezes, pra não dizer quase todas, a TV erra na minha representação com figurinos horrorosos e sem o menor glamour. Peguei quatro exemplos recentes só para começar.

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Hello, Brasew, antes de mais nada é preciso deixar claro: o Marco Nanini é VERY COOL e não se fala mais nisso, right? Mas, porém, contudo, entretanto, essa roupitcha de Morte, hummm… não lhe caiu bem. O sobretudo até que está charmoso, mas a cartolinha está mais para Zé do Caixão do que para Grim Reaper e a foice é pequena demais para a composição toda. Falha ho-rro-ro-sa da Grande Família, uma produção tão fófis, mas que também erra às vezes, néam? Nota 4.

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Mel Déls! Mas o que o fofo do Greg Duvivier está vestindo, gentchi?! Morte de camiseta preta Hering basiquinha? Ele foi buscar quem desse jeito? E o que é esse cabelo cheio de duas pontas?! Sem falar que eu jamais usaria um louro abertaço 9.0 (nunca passei do 6). Parece que uma caveira loka e biscat está tentando comer o cabeça do ator. Como diria uma amiga minha, tá UNCU. Pronto, falei. Nota Zero.

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Apesar das produções mega-fashion dos states acertarem em quase tudo, este Reaper de Supernatural me dá vontade de mandar o maquiador e o figurinista irem tomar no coo de barquinho! Desde quando a Morte parece o Fred Kruegger que não pega um sol há duzentos anos? E esta camisa branca com gravata preta? Só se for pra combinar com o seriado que é SO BOOORING! Nem dá pra dar nota.

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Maoe! Beeesha, que-que-é-isso?!! Quando vi os dentões de fora a fora pensei que fosse a Natália Casassola fazendo cosplay de Gato de Alice. Mas não é nada disso: quem está por trás da máscara é o mais que onipresente Bruno Mazzeo gravando para o Junto & Misturado da Globo. Composição quase perfeita. Tirando a olheira Bento Carneiro’s style, ficou um charme a luva branca. E eu quero, preciso, NECESSITO desta gravata xadrez, meu must have do momento. Nota 8 pro geral.

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A Morte acha que todo artigo sobre etiqueta deve ter afetação, termos em inglês, e frescura. E em breve lançará seu seriado “Everybody loves Death” produzido pela Sony, mas parece que só será exibido na REDE TV!.

CANÇÕES DO ALÉM – GOSTAVA TANTO DE VOCÊ

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Alguns leitores deste blog me acusam de forçar a barra para encaixar a temática da morte em algumas canções que falam apenas de amor. Mas o que ocorre aqui é o exato contrário: VOCÊS é que forçam a barra ao não quererem encarar a verdade. Vocês é que não percebem que falam de morte até quando acham que falam de amor e outra coisas. Portanto, nem adianta quererem discutir: a canção “Gostava tanto de você”, eternizada na voz de Tim Maia, é mais uma canto fúnebre SIM, triste SIM, que tem a morte como elemento central SIM. Pois somente sob esta ótica a letra desta conhecida campeã de rodas de violão faz algum sentido.

Primeiro, atentem para o tempo verbal do título e do refrão. O nosso personagem GOSTAVA de alguém, o que pode ser entendido de duas formas: quem canta gostou de alguém e agora não gosta mais ou gostou de alguém que agora NÃO EXISTE MAIS. Como não faz o menor sentido criar uma canção para alguém que você não gosta, o empacotamento do objeto amado fica mais do que patente. O que se comprova logo no início.

Não sei por que você se foi

Quantas saudades eu senti

E de tristezas vou viver

E aquele adeus não pude dar

Para mim está claro: a canção se refere a alguém que morreu e, pior, de forma REPENTINA. O “Não sei por que você se foi” revela uma certa negação da morte, muito comum de viúvas de quem foi pras picas e sem ano pra voltar. Reparem também na fatalidade melodramática do verso “E de tristezas vou viver”. Pensem comigo: não é trágico e fatalista demais para alguém que tenha levado um simples pé-na-bunda? O último verso fecha o caixão: “Aquele adeus não pude dar” trata-se de um típico lamento de alguém que perdeu o ser amado sem esperar. Quem nunca ouviu um “puxa-nem-pude-me-despedir-de-fulano” ao se referir a uma morte inesperada? É muito comum. Provavelmente este sujeito, ou esta mulher, é daquele tipo que se remói de culpa e ainda se joga sobre o caixão no velório, ou no enterro, e berra “Não se vá, Edinaldo!”, aquele tipo de gente que paga mico em velório, desmaiando. Um horror.

Você MARCOU na minha vida

Viveu, MORREU na minha história

Chego a ter medo do futuro

E da solidão que em minha porta bate

Trecho cuja primeira metade é bastante auto-explicativa e prescinde de maiores desdobramentos: está se falando de morte LITERALMENTE. Quem nega isso não apenas é burro como tem sérios problemas de alfabetização. E a preocupação com o futuro é coisa de gente que perdeu alguém sem ter um seguro de vida ou uma herança para receber. Ou seja, quem morreu deixou o outro na merda. Provavelmente com dívidas. Troque a metafórica “da solidão” por “do cobrador” e releia o trecho todo. Não faz mais sentido agora?

Eu corro, fujo desta sombra

Em sonho vejo este passado

E na parede do meu quarto

Ainda está o seu retrato

Aquele que achar que há romantismo neste trecho merece um tratamento psiquiátrico. Nada pode ser menos romântico que uma pessoa que sonha com o passado e foge correndo das “sombras”. Isto é coisa de filme de terror. Há, claramente, uma boa dose de CULPA aí, irremissível, das brabas, e que permeia todo o restante da canção. Outro detalhe importante: que tipo de gente inútil e sem auto-estima mantém na parede do quarto a foto de quem lhe deu um fora? Ninguém. Se não acredita em mim, olhe para as paredes da sua própria casa, do seu próprio quarto, e procure a foto daquela vagabunda, ou daquele safado, que um dia lhe chutou. Encontrou? Claro que não. Você é normal! Agora procure pela foto de um avô querido que já partiu, de uma mãe que já faleceu, de um pai ou um amigo que você nunca vai esquecer. Se você for alguém com coração e que preza a família tenho certeza que você terá uma foto assim. Não acertei?

Não quero ver pra não lembrar

Pensei até em me mudar

Lugar qualquer que não exista

O pensamento em você.

Notem que retirar o retrato da parede não basta. Porque esta pessoa cogita até em se mudar de LUGAR para não pensar no outro. O correto aqui (caso a canção se referisse a alguém que ainda estivesse respirando, claro) seria o medo de reencontrar o ser amado com outro, ou com outra, mais feliz, reconstruindo sua vida. Mas o narrador nem sequer pensa nisto. Ele apenas quer evitar de PENSAR em quem partiu, e só. Se isto não servir de prova que a canção fala de alguém que bateu as botas, não sei o que mais pode provar.

Alguns críticos consideram esta letra estranha e um tanto fraca. Nem uma coisa nem outra. A letra de “Gostava tanto de você” é claríssima e revela o desespero profundo de alguém que não aceita a morte do ser amado a ponto de cogitar mudar de casa, e de vida, para tentar superar a perda. E vocês cantando isso em barzinhos… A humanidade é desprezível.

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P.S.: Um leitor acaba de me enviar uma informação que eu desconhecia por completo. Parece que circula pela internet um BOATO de que esta música, gravada por Tim, mas composta por Edson Trindade, fala da morte da filha do compositor. Só tenho duas coisas a dizer: a primeira é que a coincidência comprova que minhas análises de “Canções do Além” trazem mais verdades do que gostariam meus críticos e reiteram o que escrevi em meu primeiro parágrafo. A segunda é que não me lembro se a história da filha do Edson Trindade é boato…

LETRAS MORTAS 5

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Ouvi o grito jamais por mim esquecido
e corri no tempo de um último gemido
e encontrei o corpo estirado sobre o pasto
e a pedra ainda na mão do irmão nefasto

Que fugiu como se tivesse pressentido
que o céu se abriria num pacto rompido
de onde o pai desceria com seu olho vasto
mas constrangido fingiria não ver o rasto

do primeiro crime e de seu primeiro réu.
Forjou-se ali, então, o homem e o meu papel:
seria eu o senhor de todo e qualquer fim

e a de um inocente a prima alma a ir ao céu
que no caminho confessou-me o nome: Abel
enquanto Deus ainda indagava por Caim.


MORTE

CINCO COISAS QUE NÃO SE DEVE FAZER QUANDO CHEGAR A HORA

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Como diz o velho ditado “para morrer basta estar vivo e não ser o Niemeyer”. Yes, gentchi! Empacotar é um fato inexorável. Mas, ainda assim, poucos, pouquíssimos, quase nenhum de vocês, para não dizer NINGUÉM, se prepara de forma decente para a hora H. E não é porque não se tem mais nada a perder que se deve perder a elegância, néam?

Por isto escolhi as cinco principais gafes que vocês cometem no momento crucial, as cinco mancadas que mais me incomodam, para que vocês evitem cometê-las em nosso primeiro e último encontro. Evitar estes cinco micos-monsters não fará de você uma pessoa melhor, claro, mas já é um boooom começo. Ou um bom final. Tanto faz.

GAFE 1: NÃO ACEITAR QUE EMPACOTOU

Entendam de uma vez por todas: não adianta espernear, chorar, berrar, ou dizer que fez acordo com Deus e o mundo. Se EU apareci é game over, ok? 

— Morte, eu não vou!

— Saco, começou…

— Tô falando sério, você não vai me levar. Eu não morri.

— Cara, eu tenho horário.

— Não interessa. Eu quero voltar pro meu corpo agora!

— Então corre porque acabaram de botar naquele forno crematório ali…

GAFE 2: TENTAR ME EXPLICAR O QUE ACONTECEU

Eu sei, eu vi a cagada que você fez ou que fizeram com você, não precisa me contar tudo de novo. Isto é soooo boring!

— Eu posso explicar, Morte: eu vinha a uns oitenta por hora.

— Cento e vinte.

— Aí o carro da frente deu sinal para direita.

— Não, não deu.

— Então vi que dava pra fazer a ultrapassagem.

— Não, não dava.

— E fui. Só não vi a moto que vinha no sentido contrário.

— Era uma carreta com um farol queimado.

GAFE 3: FAZER VISITINHAS ANTES DE PARTIR.

Isso até suporto se for rápido. Mas quando neguinho vem com papo de “queria ver minha sogra pela última vez” , COME ON! Dá pra sacar que é bullshit!

— Morte, antes de ir eu quero ver uma pessoa.

— Merda. Quem?

— Meu chefe. Quero dizer umas verdades na cara dele.

— Você sabe que ele não vai te ouvir, não sabe?

— Sei. Mas eu preciso dizer. Não posso ir sem antes mandá-lo pra puta que o pariu.

— Mas por que você não fez isso em vida?

— Porque não me deixaram. Ele é um doente terminal de câncer e está nas últimas.

— Ah tá, se é assim, então vamos. Quem sabe economizo uma viagem.

GAFE 4: QUERER LEVAR ALGUMA COISA PARA O ALÉM

Definitivamente: vocês não precisam e nem podem levar NADA. Imaginem que o além é como ir para o Rio Water Planet só que sem sunga. 

— Dona Morte, eu posso levar meu Iphone?

— Não.

— Meu computador?

— Não.

— Posso levar minha coleção de DVDs?

— Não. Desista. No além a tecnologia humana não serve pra nada. 

— Então por que você pegou meu Nintendo DS e escondeu na sua túnica?

— ISSO É PROBLEMA MEU!

GAFE 5: FILOSOFAR SOBRE O SENTIDO DA VIDA

Isso realmente DÁ NO SACO. O cara descobre a porra do sentido da vida dele só no último minuto e vem buzinando na minha orelha? Sentido da vida my ass!

— Da vida nada se leva.

— Arrã.

— Eu deveria ter escolhido melhor meus amigos.

— Arrã.

— O amor é tudo na vida. Agora eu percebi.

— Arrã.

— Eu não deveria ter cometido tantos crimes, nem roubado, nem prejudicado tanto o próximo.

— Escute, senador, o papo tá bom, mas a gente já tá parado na porta do inferno faz quinze minutos. Por favor, ENTRE LOGO!

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A Morte acha que todo artigo sobre etiqueta deve ter afetação, termos em inglês, e frescura. E em breve lançará seu livro em parceria com Danuza Leão, “Na cova com Danuza”, pela Editora Arx.

A MORTE BATE À SUA PORTARIA

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Final de tarde num condomínio da Barra da Tijuca. A dona da casa atendeu um insistente interfone. Do outro lado linha, a voz anasalada e de sotaque nordestino do porteiro deu-lhe o recado mais estranho de sua vida.

— Dona Lucília?

— Diga, seu Romildo.

— Olha só, tem um hómi aqui na portaria que quer falar com a senhora. Ele tá dizendo que é a MORTE.

— A Morte? Como assim “A Morte”?!

— Ele não falou mais nadica. Só disse que é a Morte.

— Mas como é que alguém pode ser A Morte, seu Romildo? Como é que ele é?.

— Alto, magriinho, roupa preta, capuchinho, e um facão grande na mão.

— Uma foice?

— Isso, esse troço aí, num lembrava o nome.

— E ele disse que quer falar comigo?

— Ele num falou com quem veio falá não. Disse só que veio buscar uma encomenda no endereço da senhora e que é coisa rápida.

— R-rápida?! Tá. Só um minuto.

O marido lia a colorida página de esportes do Globo quando a mulher entrou apavorada na sala.

— Carlos Alberto, problema: a Morte está na portaria do nosso condomínio dizendo que veio buscar uma encomenda aqui em casa.

— Jura? — disse o homem baixando o jornal — Será que ele veio buscar a sua mãe?

— Carlos Alberto, por que quando se fala em morte aqui em casa você sempre pensa na minha mãe?!

— Lógica, ué? Ela já está com um pé na cova faz tempo.

— Ela nem mora aqui.

— Mas a gente pode ligar pra ela vir. Deixa que eu ligo.

— Largue este telefone AGORA, Carlos Alberto! Que é que é isso? Não é assim que funciona. Eu sempre li que a Morte tem hora certa.

— E, mas sua mãe já passou da hora.

— Quer parar de falar na minha mãe?! A Morte está na NOSSA portaria.

— E daí?

— E daí que ela pode ter vindo busca um de nós dois. Por que não? Por que não pode ser a SUA hora?

— A minha? Impossível. Estou vendendo saúde.

— Mas tem colesterol alto.

— 180 não é alto! E eu tomo estatina! Você é quem pode empacotar antes de mim.

— Eeeeeeu? De onde você tirou essa idéia?

— Genética. Seus parentes morrem feito hamsters.

— Isso não é verdade.

— Lucília, só do lado da família do seu pai tem uns cinco derrames que eu me lembre. Na sua família quem passa dos cinquenta é quase um Highlander!

— Discordo, “querido”. Quem irá no seu enterro sou eu e não o contrário.

— Ah é, “querida”? Já que você está tão segura, por que VOCÊ não vai à portaria e pergunta pessoalmente quem a Morte veio buscar?

Um pio de pássaro se ouviu ao longe durante o curto silêncio da mulher. Que acabou se irritando de vez.

— Carlos Alberto, eu já atendi o interfone. Será que eu tenho que fazer tudo nessa casa? Custa levantar a bunda da cadeira de vez em quando?

—Se custar a minha vida, custa.

No meio da discussão um adolescente de bermudão xadrez e ouvindo Ipod surge deslizando num skate.

— Pai, mãe, vou andar de skate com o Batata!

— JÁ PRO QUARTO AGORA! – Explodiram os dois.

O moleque assustado enfiou o skate debaixo do braço e sumiu corredor adentro. Quinze minutos de bate-boca, e alguns vasos quebrados depois, o casal decidiu conversar com a empregada na cozinha.

— Entendeu, Elvânia? É só ir lá na portaria e perguntar que encomenda esse sujeito veio buscar.

— Mas não vai atrasar o meu serviço?

— Deixa atrasar! — disse o marido já aflito e empurrando a empregada para a porta — Vai logo que ele deve estar impaciente. Esse cara veio de longe.

— De onde, Seu Carlos?

— Alguns dizem que ele é do limbo, outros dizem que é do céu, mas também pode ser do infer…

Lucília pigarreou furiosa fulminando o marido com o olhar. Carlos Alberto suspirou.

— Ele é de Minas, Elvânia. Itajubá.

— Ai, jura? Adoro o povo de lá!

A empregada saiu toda animada. Minutos que pareceram dias se sucederam até o silêncio ser cortado pelo interfone da cozinha. O porteiro novamente.

— Dona Lucília, só pra dizer, o hómi já foi embora, visse? Parece que ele cansou de esperar e sumiu.

O casal respirou aliviado. O marido até fez um sinal da cruz.

— Ai, que ótima notícia, seu Romildo. Obrigada. Agora, por favor, peça para a Elvânia voltar.

— Pois é, Dona Lucília, isso que eu ia falar. O homem foi embora, mas a empregada da senhora teve um piripaque e caiu durinha aqui na frente da calçada. Não tá nem se mexendo. Já chamei ambulância e tudo.

A mulher desligou o interfone ainda impressionada com a experiência. O casal se abraçou num gesto automático. Ambos emocionados por terem escapado de uma visita do Fim de Todos. Mas, ainda que quisessem, não conseguiriam ignorar a tristeza onipresente. Eles sabiam que a vida nunca mais seria a mesma. Sabiam que naquele instante a Morte ria às gargalhadas em algum lugar do além. Afinal, os dois tinha a consciência de que arrumar um novo marido ou uma nova esposa não é algo tão complicado assim. Porém, tentar arrumar uma empregada nova no Rio de Janeiro é um castigo divino. A danação eterna estava apenas começando…